Meta-projetos: discussão geral

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Meta-projetos: discussão geral

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Dom Maio 19, 2013 12:53 pm

Inicio este tópico para compartilhar pensamentos gerais e para discutirmos coisas relacionadas a própria compreensão e metodologia da elaboração de nossos projetos de nemeta. A ideia é que visemos construções objetivas e realizáveis. Por favor, ficai a vontade para comentários, críticas e dúvidas.

Pressupostos.

É muito provável que nossos ancestrais celtas da península Ibérica tivessem uma concepção próxima a expressa por Sêneca nas Epist. 41.3 (que possuia, ele próprio inclusive, origem celtíbera) sobre a constituição “energética” (desculpai a palavra, não achei uma melhor) dos espaços sagrados. Assumirei, pois, a visão de que há uma espécie de “força” que se configura em determinados locais de modo distinto de outros, de modo a proporcionar uma maior sensação da presença, conexão ou manifestação do divino. Assumirei que tal concepção está ligada ao termo Proto-Céltico *neybos, “força vital, energia, vigor”. Uma “concentração” de tal *neybos, uma disposição tal deste na paisagem traz à percepção o sentimento que de um algo que é denominado pelo adjetivo “celeste, elevado, nobre, privilegiado”, ou seja, *nemetom, “santo”, de onde “santuário, lugar santo ou privilegiado”. Tal configuração, pelo menos arcaicamente, parece ter sido melhor percebida nas antigas e espessas florestas, de árvores altas e escuras. Seja nas clareiras (*yalom) que rapidamente se tornavam “praças” ou pontos de encontro e discussão (e posteriormente o termo passou a designar, pelo menos em gaulês, “praça de comércio, mercado”) ou em locais, cuja estrutura acústica (pelo menos é o que parece denotar a etimologia do termo) permitia ouvir melhor determinados discursos, provavelmente récitas e hinos religiosos – me refiro a estrutura (aparentemente com maior intervenção da arte humana) chamada de *φarawsyos. Existe a percepção, atestada em um adjetivo fossilizado em antropônimo asturiano, de que há lugares ou coisas “muito sagradas” (*ad-nemeto- > ANEMIDI, epitáfio de Vado Nebira, Crémenes, León), o que implica em dizer que há lugares mais sagrados que outros, o que é o mesmo que dizer que há locais menos sagrados que outros.

Se esta visão (do *nemetom como um *nityos, local, que apresenta uma configuração específica e distinta de *neybos) estiver correta, podemos ligá-la à visão de uma Geografia Sagrada, expressa na percepção singular da paisagem. Tal visão, geralmente, traz consigo uma certa implicação entre o local e a expressão específica do sagrado, sem muitas elaborações da arte arquitetônica ou intervenções humanas; ou pelo menos a visão de que as intervenções humanas devem ser precedidas de uma identificação prévia de algo já existente. Ou seja, basicamente, se acharia santuários, ou locais com condições para um. “Criar” o santuário ex nihilo, como puro ato “mágico”, destituído de uma certa configuração espacial, tópica, do *neybos não seria algo tão frequente assim (ou comum, ou mesmo possível para qualquer um, sendo necessário certa especialização, treinamento ou empoderação iniciática). No nosso caso, para nossa realidade, isto apontaria mais para a construção de *nemeta em lugares naturais a partir de certas percepções “energéticas”, do que para criação arbitrária/mágica de *nemeta em qualquer lugar ou espaço (diferentemente de certas visões neopagãs populares). Outro ponto importante a realçar é a importância do *nemetom para a permanência e eficácia da cerimônia religiosa, da comunhão metafísica da *towtā e do *tīrros, do povo e da terra. É estranha (e puramente "New Age") a prática e vivência da religião, desligada dos *nemeta.

Há também, ao que parece, a possibilidade de um determinado fenômeno “reconfigurar” o *neybos de um dado local. Este fenômeno, uma manifestação de um deus ou percepção epifânica de sua presença por meio de um vate respeitado, pode dar origem a um local de culto. A queda de um raio, o brotamento repentino de uma nascente d'água, a “queda” ou aparecimento de artefatos divinos (armas, enfeites, etc.), o aparecimento ou feito de um deus ou de um animal a ele relacionado (em situações ou contextos anormais/inesperados) podem vir a “marcar”, reconfigurar, digamos, o “padrão energético” de um local. Este tipo de procedimento é extremamente comum no que temos da literatura céltica insular (a Irlanda preservou isto nas suas maiores e mais conhecidas narrativas míticas, além dos casos especiais dos Dindshenchas). O folclore ibérico preservou uma série de contos, geralmente cristianizados, desta concepção arcaica, seja nas histórias de milagres ou nas lendas relativas a presença de “mouras” e outros seres encantados em determinados locais, como é bem conhecido.

Pois, tradicionalmente, se tem estas duas possibilidades de irradiação “energética” que oferecem a possibilidade concreta do aproveitamento/construção de um *nemetom.

Uma terceira possibilidade, também atestada entre os celtas, no mundo gaulês, ao menos (me refiro a famosa inscrição do nemeton de Belīsamā, por Segomāros), é a da construção/dedicação de um *nemetom/*φarawsyos possivelmente desvinculado das duas vias acima. Tal via é fruto da vontade e engenho humano, que reorganiza o *neybos de um espaço por meio de uma série de procedimentos e o dedica ou direciona ao divino. O grande problema, para nós, contemporâneos, é que não temos ou herdamos diretamente tal série de procedimentos (preparações, rito, liturgia, etc.) que possibilitam a ação correta (ortopraxia), e nos resta recorrer a uma reconstrução dos procedimentos, que por mais fidedigna e precisa que seja (e ainda por cima, corremos o risco de acertarmos e não sabermos!), sempre terá suas ressalvas hipotéticas. Sabemos (por resquícios arqueológicos, testemunhos literários e religião comparada) que entre estes procedimentos estão purificações, sacrifício fundacional e delimitação do espaço, por exemplo, mas o modo exato perdeu-se nas neblinas do passado. Em todo caso, é uma via possível (e muitas vezes, para nossos contextos urbanos contemporâneos), apesar de que pelas lacunas e necessidade de maior reconstrução teórica/hipóteses, pode ser visto como “menos eficiente” ou “adequado”.

Detalhes das Terras Ancestrais.

O uso de santuários antigos por politeístas e religiosos modernos é um ponto controverso. Em alguns casos (como na Grécia), se consegue autorizações dos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico do país; mas um grupo religioso pouco organizado (e pouco numeroso) possivelmente enfrentará muito mais resistência para reaver a possibilidade de culto num dado local. No caso concreto dos *nemeta da Ibéria, é importante que haja uma listagem (a mais completa possível) dos *nemeta conhecidos e o conhecimento real dos que estão sob escavações/estudos, dos que são muito protegidos e dos que estão em situação vulnerável. É necessário uma organização dos grupos e a aquisição do respeito das autoridades competentes para que a viabilidade de reutilização seja analisada de modo honesto. Claro, já há casos de locais que estão sendo reutilizados regularmente (como o *nemetom de Vila Nova de Foz Côa, Portugal), e há casos também de santuários “abandonados” que podem ser reocupados organicamente (e sem a necessidade de toda uma burocracia estatal), bastando apenas mobilização e organização. Nestes casos, já se tem *nemeta prontos, e o melhor de tudo, os próprios dos ancestrais, a grande maioria, se não todos, advindos das duas primeiras vias tradicionais tratadas acima, alguns só precisando de uma reativação. Claro que, num futuro próximo (espero eu) despontem alguns (advindos da última via apresentada acima) nos grandes centros urbanos, visando as facilidades e comodidades de transporte, estrutura e mesmo condições climáticas de certas épocas do ano.

Detalhes nas Terras do Novo Mundo.

No Novo Mundo, é interessante fazer o experimento mental seguinte: se uma tribo de Celtas da Idade do Ferro desembocassem nestas terras, como e onde seus *nemeta surgiriam? Nos climas e biorregiões demasiadamente diversas das terras históricas dos celtas, o desafio perceptivo é maior ainda. A constante da integração local (levada quase aos extremos, pelo grande culto de divindades tópicas e da encarnação da Soberania na terra local, entre outros fatores) dos Celtas é muito mais evidente que a de outros povos Indo-Europeus do Ocidente e não há motivos claros do porquê devemos abandonar isto; daí que um *nemetom de um grupo iberocelta no Nordeste do Brasil, por exemplo, será, por coerência, diverso de um no Sul do Brasil – e não apenas pelas diferenças biorregionais, mas pela própria concepção céltica de integração com o ambiente. Em relação as vias tradicionais para o estabelecimento dos *nemeta, nos primeiros casos, um certo diálogo com as tradições nativas é relevante. Os santuários nativos expressam a percepção singular, trabalhada ao longo de séculos dentro da forja particular do Novo Mundo, da Geografia Sagrada – algumas de suas categorias podem variar e mesmo mostrarem-se incompatíveis (e uma insistência, geraria desafeto e ofensa) com as Celtas. No entanto, a observância desta é crucial pela prerrogativa do respeito aos primeiros agentes que habitaram a terra; descartar suas experiências por completo é ignorar a realidade concreta da biorregião local. A colonização e a herança católica popular trouxeram consigo a concepção (pagã) das manifestações divinas (cristianizadas, pois, aparecimentos de “santos”, visagens, milagres, etc.) inaugurando locais de culto seguindo o padrão folclórico herdado (em lajedos, fontes, etc.). Claro, há casos de suplantação de um substrato indígena ou casos de incrementação com posteriores elementos de origem africana, apesar de que nestes últimos casos serem mais fáceis de distinguir/identificar.

Isto faz com que a segunda via seja um tanto quanto mais complicada (ao menos se comparado ao que se passa na Europa). A primeira via, da percepção “direta” do *nemetom, é ainda bastante possível na paisagem, mas requer uma maior afinidade com certos padrões locais (dada a diferença de fauna, flora e – em alguns casos – geologia). A última opção, para as terras do Novo Mundo, é, talvez, ao mesmo tempo a mais insegura e por outra a mais “responsável”/“agressiva” para com a herança prévia do local. Isto faz com que haja uma maior necessidade de que nestes locais se compreenda os padrões e processos dos *nemeta tradicionais (na Europa) para pensar e construí-los cá, adequadamente. A “nemetologia” (em céltico: *nemeto-wīssus, o estudo dos *nemeta visando sua reprodução metafisica e comunitariamente funcional) é uma requisição pragmática do Novo Mundo. A Europa precisa mais revitalizar seus *nemeta e apenas em casos específicos, construir novos. Os que estão no outro lado do Atlântico precisam mais construir novos. Revitalizar os espaços sagrados nativos é, em muitos casos, quando não uma imposição cultural desrespeitosa, uma apropriação questionável de uma herança sui generis. Mas para construí-los, precisamos compreendê-los, e não apenas materialmente, mas, principalmente, espiritualmente.

Metodologia.

A compreensão espiritual da natureza e função do *nemetom surge da mundivisão céltica, quando experienciada o mais integralmente possível. É, pois, a união dos dados corretos, com a lógica própria arcaica e com a experiência concreta que possibilitam uma visão clara. O vislumbre vindo da experiência acumulada efetiva de uma liturgia (mais próxima possível do que é possível saber como era) e suas sensações-epifanias é um bom começo. O estudo e compreensão dos testemunhos (contemporâneos, medievais, folclóricos, etc.), o estudo de religião comparada Indo-Europeia e dos seus discursos em relação aos seus templos, a visão internamente consistente de onde os fragmentos herdados se encaixam, são condições a serem preenchidas. Há uma natureza e um propósito, uma forma e uma essência no *nemetom. Há uma espécie de mescla entre o estético, o cognitivo e o especificamente místico no processo. Claro, respirar os ares antigos, in loco, dos velhos *nemeta é uma vantagem valiosa que os que moram nas Terras Ancestrais possuem e que deve ser aproveitada.

A compreensão material pode nos apontar uma possível “unidade de projeto” que por sua vez reflita a semelhança de ideias religiosas e de uma metafísica comum. A análise e comparação das estruturas, formas, mapas, alinhamentos, disposições dos elementos, possível reconstrução do modus operandi do rito in loco, a identificação de possíveis inovações (vindas da romanidade, etc.) contribuem para formar um quadro geral preciso, cultural e historicamente coerente. Uma vez identificado certo padrão, se pode vislumbrar certas evoluções ou implicações naturais/orgânicas com maior segurança e facilidade.

A ordem de tais abordagens tenderá a delimitá-las: se partimos da depuração e aperfeiçoamento do conceito, da ideia e da familiaridade espiritual para depois olharmos os exemplos concretos, incorremos numa postura “Idealista”. Se por outro lado, partimos dos exemplos concretos, para a partir deles apurarmos e moldarmos o conceito, incorremos numa postura “Materialista”. Ambas geram resultados, mas não creio que sejam os mesmos resultados em todos os casos.

Iniciemos o trabalho, pois o caminho começa a se mostrar no horizonte. Que tal iniciarmos a análise de alguns *nemeta?

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