Sobre o marco inicial do nosso calendário litúrgico

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Sobre o marco inicial do nosso calendário litúrgico

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Dom Jan 12, 2014 12:55 pm

Introdução e pressupostos

Primeiro e antes de mais nada, proponho que façamos a divisão prática entre duas percepções de tempo, coisa que já fazemos aqui, a primeira é a cotidiana, parte de nossa formação social e externa a nós, fruto das reformas do calendário juliano (com a transformação no calendário gregoriano) e da cristianização, esta parte é a do calendário civil – calendário de nossa vida social mais ampla, emprego, etc. A outra percepção, é a percepção religiosa do tempo, que atribuiremos no calendário litúrgico.

No passado, antes da conquista romana, os povos da Península Ibérica possuíam seus calendários litúrgicos que determinavam, mais ou menos, a vida social., como os demais povos Indo-Europeus. Não sabemos exatamente como tais calendários eram, nem se tínhamos um calendário unificado, ou, mais provavelmente, variantes tribais sob um sistema comum. Temos uma série de evidências que apontam para que observavam os ciclos lunares e os pontos equinociais e solsticiais, além de que, em alguns casos, dos pontos solares intermediários, conhecidos como as festividades célticas. É bem razoável pressupormos que utilizavam um sistema que conseguisse integrar isto tudo, neste caso, um sistema lunissolar, como já discutimos noutras ocasiões. É razoável, também, pressupor que tal sistema se aproximasse ao que de mais próximo temos, seja linguística, cultural e religiosamente dos celtas da Península Ibérica, ou seja, do que temos dos outros povos celtas, especialmente dos continentais à época. Neste caso, o calendário de Coligny, dos gauleses, nos aparece como um sistema que podemos crer próximo/análogo ao dos celtas da Península Ibérica. Dentro deste raciocínio, nós cá, seguimos, conforme já explicamos cá no fórum, um calendário lunissolar baseado no sistema de Coligny, para as finalidades litúrgicas e instigamos os demais membros e correligionários a seguir-nos nisto ou participar conosco na construção de alternativas para nossa vivência cotidiana.

Outro pressuposto que assumimos é o do “localismo”: o calendário deve estar relacionado a percepção sagrada do tempo pelas estações, sendo por isso, “local”/tribal/regional em seus detalhes, por mais que possua uma estrutura supratribal/suprarregional. Enxergamos tal premissa como sendo ortoprática, ou seja, como sendo uma prática justificada pelas evidências que dispomos: se uma tribo céltica da idade do Ferro fosse transplantada para uma certa biorregião de clima e tempo bem diversos da região de origem, tal diversidade refletir-se-ia no calendário religioso, cedo ou tarde, por ser da própria percepção da religião céltica a interpretação da geografia sagrada local e das variantes climáticas (como atestam o grande número de divindades tópicas e variantes tribais de festas, etc.), diferindo nisto, da “estatização”, fossilização de datas e festividades num grande sistema suprarregional/imperial, necessário à administração política de territórios muito extensos, como ocorreu no Império Romano ou no Heleno-Macedônico. Daí decorre a diferença fundamental entre os anos litúrgicos do Hemisfério Norte e do Hemisfério Sul, assim como a liberdade fundamental dos grupos adaptarem-se localmente, regionalizarem-se – esta é uma forma moderna de continuar a tradição tribalista dos antigos povos célticos, especialmente dos residentes na Península Ibérica, seja na configuração do “panteão”, seja na organização litúrgica, calêndrica, etc. É bom lembrar que tal “tribalismo” (repleto de diferenças de terminologia, costumes e mesmo, em alguns casos, de hostilidades internas) não impede o reconhecimento de uma identidade maior, uma “meta-identidade”, exemplificada no passado nas uniões das tribos contra um invasor comum; e que hoje pode igualmente exemplificar-se na união em prol de bandeiras comuns.

Numa sociedade integralmente iberocéltica, o calendário litúrgico teria proeminência sobre o civil, já que todos estariam dentro da compreensão religiosa do tempo, de modo que o uso do calendário seria uma convenção, necessária na medida em que tal sociedade se relacionasse com pessoas fora da comunidade religiosa. Isto não parece que irá acontecer em breve, dado que uma comunidade integralmente iberocéltica, ainda não existe, pois somos minoria, mesmo entre as pagãos dos países Ibéricos e da América Ibérica em geral. Mas, talvez (e trabalhemos para tal), aconteça um dia.

Ter um calendário e um marco inicial próprio é algo interessante, não só por motivos “canônicos” para os iberoceltistas, mas por oferecer também um referencial próprio, dotado de valor religioso e significado identitário. É uma afirmação necessária para uma vivência integral. Além de equiparar-nos às demais religiões etnocentradas que possuem ou trabalham para terem/restaurarem seus próprios calendários.

Antecedentes

A convivência com dois sistemas computacionais de tempo não é algo estranho no mundo religioso (os católicos mesmo, possuem um calendário litúrgico que difere do civil, sem contar as pessoas adeptas de outras religiões, como as orientais). Próximo dos iberoceltistas há os druidistas, especialmente os pertencentes a ordens que remontam ao revival romântico (séc. XVIII-XIX), que se utilizam de calendários próprios para fins religiosos, utilizando eventos míticos (transplantados para o plano histórico) como marcos iniciais. A desmitificação, a interpretação histórica de eventos fundacionais é comum, seja nos calendários Indo-Europeus (a fundação mítica de Roma é o exemplo mais gritante, talvez) seja entre outros povos (até mesmo entre os judeus, o marco inicial remonta a tal procedimento). É importante notar que tal “desmitificação” baseia-se, pela sua própria condição, numa convenção, não se trata de um evento que possa ser precisado com exatidão de segundos no curso histórico. O exemplo mais óbvio de tal vagueza é justamente o do calendário cristão, cujo marco inicial “o nascimento de Cristo” é tudo menos preciso, sendo fruto de adaptações e usurpações (Natalis Solis Invicti, etc.) sedimentadas/impostas politicamente a ponto de se tornarem uma convenção sólida, com o passar dos séculos, e mesmo impensável de ser questionada, durante um tempo. Ou seja, podemos assumir que a interpretação histórica de um evento mítico (para fins de marco inicial de um calendário) é impreciso e muito mais fruto de convenção e acordo do que de precisão histórica/astronômica.

Marco inicial

Mas, qual episódio utilizaremos como marco inicial?
Para responder a esta pergunta precisamos, antes, responder a uma outra: desejamos compartilhar de um marco pancéltico ou de um marco iberocêntrico?

O marco pancéltico, apesar de ser um unificador das diversas denominações e movimentos centrados nas religiões célticas, possui diversos pontos problemáticos. Ele condiciona nossa situação específica, sobre a qual podemos agir livremente, à uma comunidade religiosa bem mais ampla, e mesmo, alheia às nossas especificidades culturais, delimitando nosso campo de ação. Além de que, nos limita, em termos práticos, a formular um marco que seja aceito pela maioria dos celtistas, seja nos vários países da Europa, seja nas Américas e Oceania. Basicamente, diminuirá fenomenalmente nosso poder decisório. Outro grande problema seria definir qual evento seria o tal marco, pois, teria de ser um tal significativo tanto para nós, iberoceltistas, quanto para os reconstrucionistas gaélicos, britônicos, gauleses e neodruidistas. Conseguir um consenso tal, considerando o “tribalismo” e descentralização de nossos congêneres religiosos, principalmente quando tal proposta venha de uma parcela minoritária (se partisse dos majoritários gaélicos, talvez fosse melhor considerada), é muito problemático. Estas são as principais dificuldades em meu ver, dificuldades práticas em relação a comunidade internacional mais ampla.

A melhor maneira de superar tais dificuldades é restringirmos o alcance cultural do marco, ou seja, focarmo-nos num marco iberocêntrico. Nisto, delimitaríamo-nos na comunidade iberocéltica (européia – de Espanha e Portugal – e iberoamericana), que por mais que seja dispersa e descentralizada, é em menor número e, por isto, mais passível de ser mobilizada e de alcançar um consenso prático. Por tais motivos estamos cá escrevendo, para convocarmos um debate em prol de uma linguagem interpretativa comum, ou ao menos, próxima em se tratando do calendário litúrgico. Ora mais qual marco seria este? Adotarmos um marco mítico é complicado por não haver um corpus mitológico preservado, ao contrário, havendo uma série de fragmentos e “retalhos” míticos preservados pelo folclore, cristianização, romanização, iconografia, etc. Logo, uma data histórica seria bem adequada. Mas qual?


  • O ano de morte/heroicização (139 ou 138 a.e.c.) de Viriato?
  • Da Vulcanália (23/8/153a.e.c.), marco da heróica resistência celtibérica contra o invasor romano?
  • Qual outra data?


A primeira talvez seja mais significativa para as pessoas dentro da esfera cultural portuguesa, enquanto a segunda para os em uma esfera espanhola, não sei bem. Gostaria muito de ouvir o que a comunidade tem a dizer.

A questão hispanorromana

Mas por qual motivo não adotamos uma data de significação hispanorromana, retomando um marco que já foi utilizado, como o da "era de César", utilizado oficialmente em Portugal até 1455? É uma boa questão, cuja resposta depende do como se pratica religiosamente; para aqueles que cultuam as divindades ibéricas à romana, compreendendo-se, religiosamente, como hispano-romanos, de fato, é a saída mais coerente. Para os que se focam religiosamente no período pré-romano, nem tanto. Para aqueles que desejam retomar a “era de césar” deixo cá os cálculos necessários.


  • basta somar 38 ao ano do calendário juliano. Por exemplo, hoje, no dia que escrevo, 12/1/2014 corresponde a 30/12/2013 do calendário juliano, que por sua vez, corresponde a 30/12/2051 (2013+38) da era de César (2051e.C. para “era de César” ou 2051e.h. para “era hispânica”).


Exemplo na contagem litúrgica lunissolar.

Considerando tudo isso, vou mostrar um experimento, um EXEMPLO da contagem do tempo por ciclos lunissolares (para fins litúrgicos) tendo como marco o ano (138a.e.c.) de ascensão/heroicização de Viriato.

Considerando que o ciclo de Coligny tem 1830 dias (5 anos de 354 + 2 meses intercalares de 30 dias cada, ou seja 1830 dividido por 5 dá uma média de 369 dias por ano) e considerando que se passaram 2138 anos, cada ano com 365,25 dias (e considerando menos os 11 dias da passagem do calendário juliano para o gregoriano em 1582) teriam se passado aprox. 780.893 dias. Fazendo umas simulações computacionais (utilizando o software Stellarium), considerando o céu de Coimbra como referência e recuando até o ano 138 a.e.c., o ano iniciaria na primeira lua cheia após o Equinócio de Outono (que ocorreu no 25/9/138 antes da era cristã), ficando a lua nova com seu filete visível no dia 13/10/138a.e.c., iniciando o mês 1. Fazendo os cálculos para o HEMISFÉRIO NORTE, o ano 2000 de tal calendário iniciaria no 10/10/1866 do calendário gregoriano, o 2100 em 15/10/1966 e somando-se 8 ciclos, temos o ano 2140 em 2006, iniciando em 23/9/2006, fechamos outro ciclo em 28/9/2011, entrando no ano 2146. E os correligionários das terras ancestrais (e os demais do Hemisfério Norte) teriam entrado no ano 2147 em 5/10/2013 (estando no ano 3 do ciclo, onde o mês intercalar entra depois do mês 6 e antes do 7 para a sincronização lunissolar) > no ano litúrgico de 2147 depois de Viriato (2147d.V. Very Happy ). Aqui no HEMISFÉRIO SUL, considerando a história de descobrimento das Américas, ou se adiantaria meio ano, ou se retardaria meio ano, pois a base do cálculo - o equinócio de outono - ocorre cá em março (do calendário gregoriano), o oposto da Europa; ou seja, ou estaríamos já perto do final do ano 2147d.V. (caso adiantássemos) ou já perto do final de 2146d.V. (caso retardássemos).

Mas vamos ao que interessa, que pensais vós de tal questão (de um calendário próprio e do marco inicial)?

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