RESENHA: A Divinidade Celeste/Solar no Panteão Céltico Peninsular.

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RESENHA: A Divinidade Celeste/Solar no Panteão Céltico Peninsular.

Mensagem  Arkius em Seg Mar 13, 2017 6:42 pm

Segue resenha em português do artigo: “La Divindad Celeste/Solar en el Panteon Celtico Peninsular”, de Ruben Abad Lara. Em minha singela opinião, Ruben consegue sistematizar de forma bastante convincente os principais elementos da religião dos celtas da península ibérica a luz dos dados arqueológicos. Leitura altamente recomendável:

RESENHA: A Divinidade Celeste/Solar no Panteão Céltico Peninsular.
RUBÉN ABAD LARA

Em seu artigo “La Divindad Celeste/Solar em el Panteon Celtico Peninsular”, Ruben Abad Lara, identifica essa entidade, Celeste/Solar, como a principal deidade dos celtas da ibéria, representado por um cavaleiro empunhando uma lança. Lug seria a divindade que mais abundantemente se relaciona com o Deus cavaleiro, bem como oque melhor se encaixa em suas funções: guerreira, fertilizadora, e psicopompa(guia de almas). Outros epitetos fariam referência a essa mesma divindade solar/celeste tais como: Eaecus, Reve, Neton, etc.....

Em sua função guerreira, essa divindade solar desponta como um grande protetor da humanidade, tendo os símbolos solares, ao que tudo indica, funções de talismãs protetores. O raio seria a principal arma do deus do céu, usada tanto para inflingir danos a espíritos malignos como aos próprios homens. Abad Lara cita o caso do Deus Jupiter romano, que castigava com seu raio aqueles que faltavam com sua palavra ou violavam os pactos, deduzindo que o mesmo se extenderia a divindade suprema dos celtas ibéricos. Alude a Odin e a Lugh (irlandês), como entidades celestes que também portavam lança como arma, garantidora da vitória, a quem quer que a empunha-se.  

Essa arma da vitória, presente na literatura irlandesa com a lança prateada de Lugh, chamada Gai Bolga, encontra na historiografia ibérica um paralelo no relato do historiador romano Floro sobre o líder numantino Olyndicus que portava uma lança prateada enviada do céu. Deduz então existir a crença entre os celtas da ibéria, que os deuses podiam enviar objetos ou animais as pessoas, a quem as divindades dispensariam uma proteção especial.

A função protetora da divindade solar contra os maus espíritos, se relacionaria com a função curadoura e protetora contra enfermidades.
“ [....] en el texto de «Oración a Kantuzili para aliviar sus sufrimientos», se halla a ese personaje, posiblemente un príncipe, rogando al dios del sol que lo libre de su enfermedad42. En el mundo galorromano, la divinidad guerrera Marte era invocada como un guerrero que luchaba contra la enfermedad, y de hecho poseyó santuarios curativos como el de Marte Lenus en Trier43, mostrando la conexión entre guerra y curación como un proceso común en el que se vence a los espíritus enemigos que causan mal. Especialmente significativa fue en el contexto de las curaciones, la conjunción de sol y agua, a los que se otorgaba un poder regenerativo con gran capacidad de curación44, algo que también trataremos durante el análisis de la divinidad solar en su rol fertilizador.” (RUBÉN ABAD LARA. La divinidad celeste/solar en el panteón céltico peninsular. Espacio, Tiempo y Forma, Serie II, Historia Antigua, t. 21, 2008, págs. 79-103. p. 85-6)

Na literatura irlandesa, também se ilustraria esse caráter curador de Lugh. No Ciclo do Ulster, nos combates de Tain Bo Cuailnge, Cuchulainn foi gravemente ferido, mas foi curado por seu pai, Lugh, durante um período de três dias. Em outro mito, Lugh se utiliza de uma pele de javali mágica capaz de curar feridas.

Em todas as mitologias indoeuropéias , o mundo é criado após a derrota de um grande monstro, que reteria as águas do mundo impedindo o surgimento da vida. De modo que o Deus do céu e do raio enfrenta e vence o monstro, de onde adviria seu caráter guerreiro inicial.
Do mesmo modo, na ibéria céltica, deveu existir esse mitogema, representado na imagem do cavaleiro enfrentando uma serpente. A base do mito, seria a idéia do Deus Celeste vencedor do caos e da noite, originando o dia. Abad Lara vê essa figura representada por Lug e interpretada, durante o processo de romanização, em alguns casos, como Mercúrio.

Abad Lara ilustra esse mito com a estela funerária de Clunia: aonde a vaca seria uma representação da lua, em especial os chifres, em forma de crescente lunar, símbolo de regeneração periódica. Sobre a vaca, um lobo que a ataca, há um paralelo de um mito germânico que explica o movimento do sol e da lua pela perseguição por lobos. E assim, a cada mês um lobo morderia a lua, mas ela escaparia, recuperando a parte perdida. Na estela também esta presente uma serpente bicéfala (a noite) que zelaria pela guarda da vaca (lua). Essa representação é fartamente presente na mitologia indo-europeia como na grega, em que Argos (a noite) guarda Io, a virgem cornuda, também representada por uma vaca. Na mitologia irlandesa o Deus cornudo Buar-ainech, representava a lua divinizada, era custodiado pelo seu proprio filho Balor, a personificação da noite. No outro lado da moeda, um cavaleiro portando lança (Lug?), o sol, o dia.

No mundo indoeuropeu é freqüente que o Deus do Raio seja o encarregado de proporcionar chuiva, Indra na mitologia védica, Thor na nórdica, Zeus na grega.....

O ritual de imprecação da chuiva era um ritual em que intervia o sangue, pois se tendia a identificar o sangue com a chuiva. Se a primeira se produzia e corria em abundancia, a chuiva também o faria. Por isso o sol também era visto como um caçador que fertilizava a terra, derramando o sangue de suas vítimas.

Assim, se alude ao tema da caça divina, que aparece na peninsula ibérica sob a forma de caça ao javali. Mito representado em uma série de fíbulas. Em duas, em especial, aparece representado na parte posterior da fíbula uma deidade feminina entre os prótomos do cavalo, possivelmente a deusa da fecundidade da terra, esperando que caia o sangue do javali sobre ela em forma de chuiva, para ser fertilizada e proporcionar a abundancia a humanidade.  

Através da associação do sol e da chuiva, a divindade suprema pode atuar como fertilizador. Também necessita haver uma segunda associação, o matrimônio do Deus supremo, o princípio masculino da sociedade, com a Deusa da fertilidade, o princípio feminino da natureza, para garantir a prosperidade do povo. Exemplo é o caso de Júpiter Liber, antiguíssima divindade agrícola con sua consorte Ceres.

Como o deus da soberania, retorna Nuada a seu lugar legítimo como rei. Seu nome era aparentemente usado para se referir a guerreiros, como visto nos poemas de Leinster, mas também aparentemente em Gaulish, onde "lugus" também é traduzido como "lynx", ou "lugos" como "corvo", o último dos quais é um Grampo de campos de batalha. Os Dinshenachas Metricos referem-se a ele como "guerreiro Lug" (Gwyn, IV, 227)

O papel de Lugh como um deus da soberania é demonstrado mais explicitamente em "Baile in Scale", no qual Conn Ceadcathach entra em uma névoa misteriosa e encontra a si mesmo e seus companheiros no Outro Mundo na Casa de Lugh. Ele conhece Lugh e Flaithe - literalmente, soberania. Flaithe pergunta quem será servido por uma copa de ouro, e Lugh responde que é Conn, enquanto ele prossegue a profecia sobre os futuros reis da Irlanda. Esta laços com Lady de Michael Enright com uma copa de Mead, que demonstra o processo de tomada de líder na Idade do Ferro na Europa: uma deusa ou ela profetiza, geralmente associada a "Mercurio" (Lugh, Esus, Odin), oferece o líder de uma copa de bebida alcolica no ritual, selando sua posição. Mercúrio é um deus não só de comerciantes, mas de contratos em geral - e se o nome de Lugh deriva do "juramento", não é surpreendente que seu papel seja assegurar a liderança e a soberania.

A divindade celeste, não se relacionava a fertilidade como produtor e sim como guardião. Função essa enquadrada em sua função guerreira, atuando como guardião dos campos, protegendo as colheitas dos demonios que a prejudicavam. Por esse trabalho, celebrava-se ao final da época da colheita um festival em honra da divindade protetora, o Lugnasad em honra do Deus Lug, a cada primeiro de agosto, patrono também dos primeiros frutos. Em paralelo, em Roma, se celebrava o October Equus a quinze de outubro, em que se rendia graças a Marte por proteger o grão.

O sol é tradicionalmente vinculado a idéia ultratumba. Sua morte diária e ressurreição é o máximo expoente da concepção cíclica do tempo e da vida. A orientação a leste dos dólmens da área soriana, como exemplos escavados em Carrasco (Soria), nos remete a uma antiguíssima vinculação do sol ao destino humano após a morte, indicando a intenção de solarizar a sorte da alma com o curso do sol, o qual implica a crença em um renascimento, uma existência ulterior em outro mundo. Seu papel psicopompo, condutor de almas, inclui propiciar a ressurreição dos mortos.

A incineração esta mais estreitamente vinculado a divindade solar do que a descarnação, reservado aos guerreiros caídos em combate. Devemos pois, para melhor compreender, nos aproximarmos da versão mais lúgubre do Deus sol, que se faz soberano do mundo subterraneo dos mortos durante a noite.

As representações da divindade solar/celeste, é mais frequentemente representada como um cavaleiro acompanhado por um ou dois cães, mostrando-se como um Deus caçador. Sucellos, deidade gaulesa, que porta um maço e possui caráter infernal, costuma aparecer acompanhado de um cão. Dagda, irlandês, também porta um maço capaz de tirar a vida ou devolvela. O Deus caçador é o senhor da vida dos vivos, mas também possuia a faculdade de retirar a vida que outorgava.

O deus cavaleiro em sua advocação funerária, se apresenta como um obscuro caçador que na companhia de seus cães busca a caça durante a noite, as almas dos mortos. Essa figura foi conservada no folclore da zona dos pirineus.

Ruben Abad, cita J. Caro Baroja que assinalava a semelhança de relatos na França e Alemanha que teriam como protagonista: Helljäger «o caçador infernal», lenda também conhecida como como «a caça selvagem», e que seria a pervivencia do mito de Odin, que caminha seguido por um cortejo de almas perdidas, havendo ramificações do mito em todos os povos indo-europeus.  

Esse mito, do caçador negro, pode ser encontrado na ibéria celta representado nas fíbulas de cavaleiro e cavalos, que portam em sua parte dianteira uma cabeça humana. Os celtas consideravam a cabeça como recipiente da alma, crença difundida em todo o mundo indoeuropeu, de modo que a cabeça era a representação da própria alma humana.  Oque se pode atestar pela ceramica de Uxama (Burgo de Osma, Soria) em que se representa aves psicopompas transportando almas dentro de uma espécie de caixinhas com asas e que são representadas como cabeças. Ruben Abad, rejeita a interpretação comum de considerar essas cabeças constante na frente das fíbulas como troféus, e interpreta como representações das almas transportadas pelo Deus cavaleiro ao mais além, tal como nas lendas. O caçador negro seria conduzido pelos seus cães aos moribundos e lhe tiraria a vida, caçando sua alma e transportando-a ao inframundo.

A estela de Alcañiz (Teruel), retrata o ritual de exposição do guerreiro morto em combate, devorado por abutres em presença da divindade cavaleira, acompanhada do seu cão.

O caso mais claro de uma divindade com características do Deus cavaleiro solar, mencionado nas fontes, é a do Deus Neton, mencionada por Macrobio (Sat. I, 19, 5) sobre seu culto entre os accitanos: “Marte solem esse quis dubitat? Accitani etiam hispana gens simulacrum Martis radiis ornatum maxima religione celebrant Neton vocantes”.

O nome desta divindade, Neton, aparece disseminado por toda peninsula ibérica, como na ara de Condeixa-a-Velha (CIL II 365), em Trujillo (CIL II 5278), como no bronze de botorrita, mencionaod como Neito, e no Monumento de Binéfar (Huesca) como Neitin. Nesse monumento de Binéfar, predomina cenas bélicas e a representação de mãos cortadas, oque confirmaria o caráter guerreiro do Neton de Macrobio. Mas, essas mãos cortadas, também nos recorda a representação na estela de Alcañiz, mostrando-nos além da faceta guerreira, a de protetor e garantidor dos pactos. Assim Neton se mostra com um dos múltiplos nomes que pode ter recebido a divindade solar, sobretudo dentro de sua função guerreira.
O caráter polifuncional que apresenta a divindade solar, remete também a Lugus. Na literatura irlandesa, Lugh esta claramente associado com a luz brilhante, podendo ter sido um Deus do sol, que se apresenta como um jovem guerreiro divino vencedor do mal. Possivelmente Lugus significa “Deus dos Pactos” como uma de suas principais funções, a de protetor dos pactos e juramentos.

Seu caráter plurifuncional, concorda de sobre maneira com outros epítetos do Deus Lug, Samh-il-dánach “o politécnico”, o “hábil em muitas artes” , Lámfhada “o braço longo”.

Duas inscrições fazem referencia a Lug: eni orosei; e equeisui. O primeiro diz “na montanha”, equiparando Lug com as divindades celestes que habitam as montanhas. O segundo, equeisui, alude Lug a cavalo, em associação do Deus com cumes de montanhas e cavalos, características de Lug da tradição céltica insular.

Estes epítetos marcam a relação de Lugus com cavalos, em acordo com as lendas irlandesas, em que Lug foi o primeiro a montar a cavalo e por isso no festival do Lugnasad se celebravam corridas de cavalos em sua honra. Esta imagen de Lug como cavaleiro divino levou  E. Peralta a identificar em alguns casos o cavaleiro das estelas funerarias com este Deus.

Outros nomes como Eaecus, que aparece frequentemente relacionado a Jupiter sob a forma  Iupiter Solutorios Eaecus, mas também a Apolo. Ou a divindade Reue, também com culto em montes e relacionado com os rios e que em ocasiões, comparte epítetos com Júpiter.

O Deus Cavaleiro Solar adorado pelos celtas da ibéria nos apresenta como uma divindade com amplas competencias que lhe fizeram valer numerosos epitetos, além dos distintos nomes que recebeu em cada rincão da geografia iberica. Sua popularidade se viu refletida em uma enormidade de representações que nos tem chegado.  

Esses epítetos puderam fazer referencia a essa mesma divindade solar/celeste que temos tratado. Mas sem dúvidas, dentre todos os nomes possíveis, o de Lugus, parece ser o mais abundantemente relacionado com o Deus Cavaleiro e que melhor se encaixa em suas funções.
Em vista dos dados, podemos afirmar que existiu no panteão religioso nos povos pré-romanos da ibéria, um Deus Cavaleiro em sua cúspide, vinculado ao sol e ao céu. E que através de sua inconografia, podemos concluir que era partícipe de numerosos mitos, a maioria comuns ao resto  das divindades celestes do mundo indo-europeu. E que ademais, parece que possuiu um culto, que longe de restringir-se a uma classe social, deveu gozar de enorme popularidade.

Original em castelhano: http://revistas.uned.es/index.php/ETFII/article/download/1715/1594
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