Sacrifícios: metafísica geral

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Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Qua Jul 20, 2011 10:36 pm

Este texto foi postado originalmente na lista Recons IberoCéltica no Yahoo Groups, nas mensagens #249, 250, 254 e 256 em Setembro de 2010, sendo depois disposto no site Senakokredima.

Estrabão, Geog. III: iii, 6 (…) “Os Lusitanos são dados a oferecerem sacrifícios, e inspecionam as vísceras, sem cortá-las fora.”. 7 (…) “Comem carne de bode a maioria das vezes, a para Ares sacrificam um bode também prisioneiros e cavalos; e também oferecem hecatombes de cada tipo, a maneira Grega como o próprio Píndaro diz 'sacrificar as centenas de cada tipo'.”

Lendo o artigo do sr. OETTINGER, Norbert. An Indo-European sacrifice in Greece. In Evidence and Counter-evidence: Essays in honor of Frederik Kortlandt. Amsterdam/New York: Rodopi, 2008. p. 403-414. Vol. 1. Este propõe que a prática de hecatombes seja Indo-Européia (doravante "IE") e, na grande maioria dos casos, algo ideal: o sacrifício de 100 bois demandava gastos e uma estrutura nem sempre acessíveis; sendo a expressão "hecatombe" mais um termo genérico que designa “sacrifício de muitas vítimas (e não exclusivamente de 100 vítimas)”. Esta visão já está no LIDDELL & SCOTT, 1996. p. 500, acerca do significado do termo 'hekatombé' em Homero (por exemplo, citam uma passagem onde o termo parece designar um sacrifício de cerca de um pouco mais de 20 vítimas) e mesmo no AUTENRIETH, 1880. p. 102.

A parte disto é proposto também o sacrifício de nove vítimas (geralmente machos, bois, bodes, carneiros ou cavalos) como uma prática IE de caráter real, político ou administrativo, atestada, segundo ele, no mundo germânico, grego, avéstico e hindu. Propõe, que há um significado preservado por algumas manifestações linguísticas conforme mostrado por Miyakawa (ibid. p. 411) no simbolismo IE do número 9. Tal sacrifício é modo de assegurar um sucesso ou mudança decisiva. O modelo “metafísico” parece ser o seguinte: i) realizadas as preparações, ii) nove vezes é sacrificado, iii) ao fim, é aguardado a décima coisa: a realização do pedido (nestes casos, geralmente para fertilidade/sucesso/prosperidade). O processo, no caso védico, é de 10 dias, sendo os 9 dias de sacrifício e o 10º do recebimento da benção/atendimento do pedido. Há uma analogia com a gestação humana, assim como ao número 99 (onde o 100, tem o mesmo valor simbólico do 10).

No caso Lusitano (e das tribos célticas da Ibéria, suponho), a aplicação do mote de Píndaro aponta para uma cerimônia sacrifical solene onde uma grande quantidade de vítimas é oferecida. No geral, tais sacrifício no mundo IE ocorrem apenas em contextos comunitários/tribais/públicos onde haja interesse político e comum de prosperidade ou sucesso, sendo presidido diretamente pelo rei/chefe tribal/autoridade instituída (auxiliado pelo sacerdócio "profissional", digamos) ou por alguém diretamente designado por este ou relacionado ao mesmo.

No mundo Luso-Callaeco, temos atestado pela epigrafia, basicamente três tipos de sacrifícios com animais, provavelmente de contextos festivos (além de espaço-temporais) diferentes:

    *O sacrifício tripartido, atestado na inscrição de Cabeço das Fráguas. Geralmente realizado em contextos de renovação sazonal da fertilidade e proteção para os campos e fontes de alimento da comunidade/tribo.
    *O sacrifício hecatombeu, atestado na inscrição de Arronches.
    *Sacrifício diverso destes, como atestado em Lamas de Moledo (2 vítimas, um angos lamaticos e um porco) ou na Ara de Marecos (6 vítimas: bois, vacas e provavelmente cordeiros).


E postularei de forma hipotética o seguinte:

    *O sacrifício de nove vítimas.


Nas fontes literárias temos outros tipos, como a) o aludido por Tito Lívio (Per. 49) envolvendo a imolação de cavalos e homens em um contexto, provavelmente guerreiro (isto foi a desculpa para ardiloso e traiçoeiro romano Sempronio Galba para o massacre de um grupo de lusitanos); b) como o sacrifício de homens realizado pelos Bletoneses (Plutarco, Quest. Rom. 83) que talvez tenha caráter fundacional ou cosmogônico; assim como c) o narrado por Estrabão de caráter divinatório, também provavelmente em contexto bélico, envolvendo cativos de guerra ou ainda d) a oferenda da mão direita de inimigos, etc.

Podemos, então, postular o seguinte modelo hipotético explicativo:

Há três tipos de sacrifício: a) o sacrifício de ação, b) o de retribuição e c) o de livre-oferta. a) é o sacrifício realizado como parte de uma cerimônia de agregação comunitária e divina (por exemplo, pelo compartilhamento da refeição) em contextos diversos, como parte da ação correta ou protocolo a ser seguido para o êxito almejado (geralmente, a atenção/testemunho ou cooperação divina). Em a) enquadramos os sacrifícios fundacionais, guerreiros divinatórios, sazonais, etc. b) é o sacrifício realizado em cumprimento de um voto formal, como retribuição e demonstração de agradecimento pelas dádivas ou êxito alcançado. Em b) enquadramos não só os sacrifícios votivos, mas também as retribuições ofertadas de outras formas (construções de santuários, aras, hinos, poemas, etc.). c) é o sacrifício de agradecimento realizado sem que haja um cumprimento formal de um voto nem um requerimento formal para cooperação divina; é um sacrifício realizado como fim em si mesmo, por livre amizade/amor/dedicação às divindades ou respeito aos costumes religiosos. Em nenhum dos três tipos de sacrifício, conforme pensamos, há a valoração moral mesquinha de “comércio”. Confesso que uma mente mesquinha e impiedosa pode encontrar espaço para ver deste modo em a) e em b); mas essencialmente não é isto, e sim reciprocidade.

Para a) postulo:
I- Sacrifício Cosmogônico/Fundacional.
    *I.i. sacrifício (humano) realizado para renovação cósmica (pela repetição do sacrifício primordial pelo qual o mundo foi feito vd. MALLORY & ADAMS, 2006. p. 435) em período determinado de tempo (por exemplo, a cada 19 anos, ou num período que desconhecemos no caso ibérico; talvez mesmo sazonalmente). Talvez tenha sido o caso mencionado dos Bletoneses.
    *I.ii. sacrifício (tanto de humanos quanto de animais selvagens) fundacional para inviolabilidade de um determinado espaço (como o sacrifício fundacional das muralhas celtibéricas vd. VILLA, Silvia Alfayé. Rituales relacionados com murallas en el ámbito celtibérico. In PALAEOHISPANICA #7. Zaragoza: Instituición “Fernando el Católico”, 2007. p. 9-41. vd. A cabeça do Bendigeit Vran, enterrada para proteger a ilha no 2º ramo do Mabinogion). Aqui enquadramos os vestígios encontrados em santuários, muralhas e fortes em geral.
    *I.iii. sacrifício (de um animal ou ave) de atamento de contratos, juramentos, pactos etc. Aplicável em diversos contextos para validação, comprometimento, firmação, asseguramento das partes com o testemunho dos deuses e eventual punição pela quebra ou desrespeito deste. Há quem suponha, com base linguística (vd. MATASOVIĆ, 2009a. p. 305), que a vítima era esquartejada e os jurantes passavam pelos pedaços. Aqui enquadramos as alianças firmadas por chefes, juramentos realizado pelas tropas em contextos guerreiros, as górtigas celtibéricas e demais aplicações políticas, bélicas e mesmo religiosas (se pensarmos em iniciações de mistérios, como se sabe que houve na zona lusitana)
.

II- Sacrifícios de Guerra.
    *II.i. sacrifício (geralmente de cavalos, bodes e humanos) de potencialização/propiciação guerreira e legitimação do poder de comando de um chefe/general (vd. October Equus romano), seja regularmente ou diante de uma ameça iminente. Aqui enquadramos o caso narrado por Tito Lívio. Segundo MALLORY & ADAMS, 2006. p 437. Tal sacrifício no mundo IE se relaciona diretamente com a inauguração real da forma como caracterizei *III.i. (ver abaixo). Neste caso, o procedimento do ardiloso romano Galba seria um mal entendido (proposital, é de se esperar) de uma cerimonial não eminentemente guerreira. Bem, penso que a investidura real e a legitimação do poder de comando guerreiro podem estar associados, neste caso tanto *II.i. Quanto III.i. Seriam um tipo único de sacrifício.
    *II.ii. sacrifício (caprídeos ou humanos) para haruspício, geralmente realizado antes de um confronto para visualização das consequências e propiciação ao deus da guera. Neste caso enquadro o caso citado por Estrabão.


III- Sacrifícios para Fertilidade/Prosperidade.
    *III.i. sacrifício (geralmente de éguas, ou envolvendo equídeos) de investidura real e casamento com a terra, para fertilidade geral e prosperidade no governo; geralmente realizado durante a investidura de cargo de um chefe (num período sazonal propício, talvez).
    *III.ii. sacrifício hecatombeu (caprídeos, bovídeos, suínos e mesmo, suspeito, animais selvagens e aves), realizado ao que parece como parte do procedimento para intervenção divina diante de eventos imprevistos, para garantir sucesso ou propiciação. Ou talvez como um sacrifício do tipo b) ou c), em momentos de grande júbilo. Neste caso enquadro a inscrição de Arronches.
    *III.iii. sacrifício tripartido (de suínos, ovídeos e bovídeos) para proteção e fertilidade agrária, geralmente realizado em épocas de renovação sazonal da vegetação ou na iminência de perigos, pragas campesinas e/ou agravamentos climáticos que prejudiquem as colheitas ou as reses (secas, enchentes, etc.). Neste caso enquadramos o registro de Cabeço das Fráguas.
    *III.iv. sacrifício de nove vítimas (bovinos, capríneos ou mesmo equídeos) para prosperidade/sucesso em empreendimentos comunitários/tribais ou fertilidade agrária em geral. Ao que parece, realizado em circunstâncias peculiares como dificuldades iniciais (no campo, na política e na guerra), visões desfavoráveis ou para reforçar um pedido às divindades. Neste caso enquadraríamos como provável a inscrição da Ara de Marecos.


Para b), postulo:
I- Sacrifícios de Agradecimento
    *I.i. sacrifício (de uma animal ou ave) pelo cumprimento de um voto pessoal, realizado após o êxito de uma empreitada pela cooperação divina; sendo realizado geralmente numa ocasião sazonalmente propícia. Aqui enquadramos os sacrifícios acompanhados da dedicação de aras, santuários, imagens e ex-votos em geral.
    *I.ii. sacrifício (de parte dos prisioneiros/escravos, troféus, cabeças e mãos dos inimigos, capríneos e demais animais trazidos como parte do butim) pelo sucesso bélico comunitário ou pessoal; geralmente também acompanhado da oferta de parte do butim em dinheiro, ouro, armas, etc. Aqui enquadramos a passagem de Estrabão sobre o sacrifício das mãos.
    *I.iii. sacrifício de retribuição coletiva pelas dádivas de um determinado período sazonal, como colheitas, crescimento do rebanho, etc. Geralmente precedido de um sacrifício ou oferenda primicial (enquadrada como a) III) realizada durante o início do período em questão. Aqui enquadramos festas de colheitas e outras festividades sazonais.


Para c), postulo:
*I. Sacrifício de livre oferta: realizado naturalmente pela devoção pessoal ou comunitária, respeito aos costumes religiosos sem que se enquadre em a) ou b).

Ora, mas como performar isto nos dias de hoje?

i.
Primeiro, o sacrifício de animais hoje é uma prática em desuso nas diversas formas politeísmo moderno de matriz indo-europeia. Já expressei minha visão sobre este ponto num texto do blog Parahyba Pagã e não me parece interessante retomar isto nos pormenores, apesar dos mal-intendidos. A princípio sou contra o sacrifício animal, os Brigaecoi NUNCA o realizaram; no entanto, reconhecemos que em certos contextos (como o de um grupo em uma comunidade politeísta agrícola) é a mais viável e nobre forma de obtenção de carne (não preciso nem comparar com a carne industrializada comida nos salgadinhos das grandes cidades). Em todo caso, sugiro a substituição dos animais por vítimas vegetais como regra geral. Isto ocorreu noutros povos (os Hindus em certos contextos, por exemplo) de modo eficiente. Para maiores detalhes, vejam o artigo da Erynn Laurie.

Seria interessante propor uma lista de equivalências (animal = vegetal/compostos vegetais). Mas para formular uma destas é necessário guiar-se por alguns critérios. Sugiro que estes sejam os seguintes:

1. o vegetal deve ter alguma semelhança física ou de comportamento com o animal,
2. deve possuir alguma relação alimentícia com ele e
3. devem possuir simbolismos e associações, se não semelhantes, pelo menos não mutualmente excludentes.


Outra opção é a construção de simulacros vegetais representando os animais a serem sacrificados, como na proposta de reconstrução do sacrifício cosmogônico proposto no artigo da Erynn indicado acima. Outra opção ainda é a preparação de alimentos (pães, bolos, etc.) no formato dos animais representando-os; neste caso cabe realçar que não há vida como há nos vegetais, mas que o que há (se há certo tipo de vida nisto, sinto que haja) já é produto de transformação e habilidade humana no domínio de processos naturais (dos grãos, fermentação, etc.).

Nomenclatura proposta a título provisório:

Proponho a seguir um vocabulário básico em Proto-Céltico, seguido das prováveis versões em celtibérico e lusitânico-callaeco (separados por um ';'). Obviamente que está incompleto. Preciso de vossa ajuda com isso.

a) *ati-od-ber-to- > atiobertom; atteobertom (vejam os cognatos em irlandês e galês)
I.i. *kentu-ati-ber-to- ?
I.ii. *kentu-ati-od-ber-to- > ?
I.iii. ?
II.i. e III.i. ?
II.ii. ?
III.ii. *kanto-bow-yā ou talvez *kanto-bow-yo- (para etimologia IE, vd. OETTINGER, 2008. p. 409) > kantobouiā/kantobouiom; cantoboviā ou cantoboiā?/cantoboviom
III.iii. *treis-nem-ā ou *mukko-owilā-tarwo-yā > treinemā, mukouitaruiā; trenema, moccoilātauriā ou moccoilātarviā (em galaico, mais provavelmente)
III.iv. *nawam-bow-yā ou talvez *nawam-bow-yo- (para o IE, ibid. p. 408) > nauambouiā/nauambouiom; navamboviā ou navamboiā/navamboviom
b) *ati-ber-to- > atibertom; attebertom
I.i. ?
I.ii. ?
I.iii. ?
c) ?

Pequeno léxico de termos úteis e provavelmente utilizados:

~Vítima sacrificial, oferenda: *ad-ber-tā (termo geral), *dawnā (designa "poema, oferenda cantada" do PIE *dapnom vd. MALLORY & ADAMS, 2006. p. 257; MATASOVIĆ, 2009b. p. 5), provavelmente *marsto- (designa "animal sacrificial" vd. MATASOVIĆ, 2009a. p. 258) e/ou um neologismo composto de *eφi-φor-e/o- ou *eφi-φeφor-e/o- (vd. DELAMARRE, 2003. p. 188-189), como *eφi-φeφor-(n)āto/ā-.

-abertā; abbertā/apperτā
-daunā; daunā ou dannā
-marstā/marstom; marsā/marstā
-eiornātā/eiornātom; eieurnātā/īournātā

~Presente: *moyni- (termo mais geral para "coisa preciosa, tesouro, dom"), *nem-ā- (designa "presente, oferta") e *dānu- (designa "dom, presente" geralmente num sentido mais metafórico)

-moinis; moenis
-nemā; nemā
-dānus; dānus

~Refeição sagrada: *westā (designa "comida, refeição festiva" vd. MATASOVIĆ, 2009a. p. 417-418), *kom-ed-āko- (designa "refeição conjunta, banquete") e *mastyā (termo geral para "comida" que acredito estar relacionado com *marsto-)

-uestā; vestā
-komedākom; comedaecom
-mastiā/mazā?; mastiā

~Festa religiosa: *lītu- (no sentido de "festival, celebração religiosa, rito" e talvez por analogia "sacrifício, festa"), *wlidā (no sentido mais geral de "banquete, festim"), *weili- (designa "festa religiosa"), *wēto- (vd. UWPCW, 2002. p. 93)

-lītus; lītus
-ulidā; vlidā
-ueilis ou ueiliā; vēlis
-ueitos ou uītos?; vītos

Alguns termos gauleses que talvez sejam úteis:

·eurisis - "dedicante, ofertante" (DELAMARRE, 2003. p. 169)
·bratu - "voto, promessa" (Ibid. p. 85)
·bratudecantem - "em cumprimento de um voto, ex-voto" (Ibid. p. 86)
·docni - "poema" (provavelmente relacionado com a raiz PIE *dapnom vd. Ibid. 146)
·rodatis - "doador" (talvez também "traidor" vd. Ibid. p. 262)

Ou seja, há muita coisa a se expor ainda, mas é o suficiente por hora. Por favor, algum comentário, crítica ou correção? Fica a vontade para expor, pois!


Última edição por M· Diniz Nemetios em Qui Jul 21, 2011 8:21 pm, editado 1 vez(es)

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Qua Jul 20, 2011 10:42 pm

Hoje, com quase um ano de escrito e com mais leituras eu espero rever umas coisas. No geral, hoje tenho maior conhecimento do contexto arqueológico sacrificial gaulês, e por exemplo, não acho que o episódio da cabeça de Bran seja a mesma coisa de um rito fundacional. Em ritos fundacionais que envoviam vítimas humanas, estas, geralmente, não eram retalhadas ou decepadas - ao contrário, o corpo era geralmente preservado; o sangue e o hálito (e não a cabeça) parecem - nos ritos fundacionais - ser o que metafisicamente mais importava para o processo, por exemplo. Entre outras coisas.

Espero quando tiver tempo, traduzir umas passagens preciosas do "Celtic Culture: a historical encyclopedia" organizado pelo J. T. Koch relativas aos sacrifícios aqui.

No mais, inté.

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  Manuel Araújo em Qui Jul 21, 2011 8:57 am

Creio que o corte da cabeça de Bran encaixaria melhor na categoria de Sacrifício de Guerra, mas de agradecimento, no qual se cortavam as cabeças dos cadáveres e estas eram levadas de volta à vila e posteriormente expostas em um género de pórticos. Por vezes o cadáver inteiro também era levado e exposto nos Nemeta e os prisioneiros de guerra eram sacrificados in locu (campo de batalha) ou no Nemeton.
Se quiseres, Marcílio, posso traduzir as passagens por ti; já estou de férias e passo grande parte do dia lendo e estudando sobre estes assuntos. Wink

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Qui Jul 21, 2011 8:33 pm

É uma boa idéia. Tens o "Celtic Culture"? Posso te indicar as páginas. Caso não tenhas, verei como te envio... ou é ver se as há no Googlebooks.

No geral, a entrada "sacrifice" (ou seria "human sacrifice"?) apresenta muita coisa - outras informações relevantes aparecem nas entradas de templos gauleses famosos ou mais escavados.

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  Manuel Araújo em Qui Jul 21, 2011 8:39 pm

Sim tenho, demorei a encontrar mas consegui há uns meses atrás. A entrada chama-se "Sacrifice" e divide-se em "Animal Sacrifice" e "Human Sacrifice". Indica-me as páginas/sub-tema e eu começa já a trabalhar. Smile

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Ok, segue então:

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Qui Jul 21, 2011 9:13 pm

Há uma passagem relativa a repressão romana do druidismo na página 613 que é interessante. Outra na página 856 na interpretação do calderão de Gundestrup, outra na 1070 ("interpretação do sítio arqueológico de La Tène"), a entrada 'Lindow Moss' (1158-1159), parte do 'religious beliefs, Ancient Celts' na página 1488, a entrada 'sacrifice, human' (1549-1552) e 'sacrifice, animal' (1548-1549), 'aqueous deposit and human sacrifice' em 1751. Claro, as informações repetidas podem ser "puladas" - poderias traduzir e postar aqui mesmo neste post. Há muitas informações relevantes nas entradas relativas aos templos e santuários gauleses ou ainda em coisas como "Foodways" e "Feast", etc. Mas, aí teríamos um trabalho para ser renumerado! Very Happy

Assim que tiver mais tempo eu próprio pesquiso sobre as festas, hábitos alimentares e técnicas de sacrifício animal e posto - há muito trabalho a ser feito para reunir estas informações e depois vermos o que podemos aproveitar para o culto hoje. Força e honra para nós, pois com as bênçãos dos deuses!

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  Manuel Araújo em Sex Jul 22, 2011 12:09 pm

Já seleccionei as partes indicadas e vou começar agora. Como vou dormir daqui a pouco, continuo amanhã e devo terminar antes do final do dia (em Portugal), espero eu. Mas há algo que não entendo: na entrada "religious beliefs, Ancient Celts" qual é a parte que queres que traduza? Se traduzir só que está na página 1488 a informação ficaria incompleta..

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Excertos de "Celtic Culture: a Historical Encyclopedia" de John T. Koch

Mensagem  Manuel Araújo em Sex Jul 22, 2011 8:28 pm

- Repressão Romana do Druidismo (pág. 613)

Segundo Strabo (4.4.5), os Romanos puseram fim aos sacrifícios de humanos por parte dos druidas da Gália. As fontes são consistentes na maneira em que retratam os druidas como tomando parte em sacrifícios de todos os tipos (Diodorus Siculus 5.31), muitos dos quais descritos como desumanos, de forma a chocar os leitores e assim justificar a repressão.
Repressão não especificada do druidismo ocorreu na Gália, durante os tempos dos imperadores Augustus (30 AEC – 14 EC) e Claudius (41 EC – 54 EC), de acordo com Suetonius (69 EC – c. 140; Claudius 25).


- Caldeirão de Gundestrup (págs. 854 a 857)

Motivos e interpretação (págs. 856 a 857)

As placas exteriores retratam uma figura humana ou um busto, rodeado de figuras menores, frequentemente dispostas de forma antitética. As placas interiores têm em si gravadas cenas maiores e de maior complexidade.
Em uma destas placas interiores, vê-se a chacina de três touros ou o sacrifício destes. Uma segunda placa mostra um busto feminino, provavelmente de uma Deusa rodeada ou atacada por animais, como dois elefantes, dois grifos alados e um lobo. O busto de um homem barbudo portador de uma roda, em uma outra das placas interiores, também está rodeado de lobos e grifos. Outra figura está a segurar na dita roda e debaixo desta pessoa, uma cobra com cabeça de carneiro pode ser vista. Outra placa representa um Deus cornudo sentado, com um torque e a cobra com cabeça de carneiro nas suas mãos erguidas. Está rodeado de muitos e variados animais, como um veado, leões e um lobo, um golfinho montado por um homem também pode ser visto.
A placa com uma procissão de guerreiros é particularmente interessante para arqueólogos, pois muitos objectos identificáveis estão nela figurados, e é possível conjecturar que podem estar relacionados com a esfera de culto e religião. A cena é dividida em dois painéis, um inferior e outro superior, separados por o que parece ser uma árvore deitada na horizontal.
No painel inferior, vê-se uma procissão de guerreiros que estão de face para a esquerda: seis guerreiros possuem um escudo e uma lança, um possui uma espada e um elmo decorado com uma figura de um javali e, por fim, três tocadores de carnyx. Na esquerda, um cão numa posição quase vertical parece impedir a continuação da procissão. À esquerda deste cão, está uma figura grande que mergulha uma pessoa num objecto semelhante a um caldeirão.
O painel superior mostra quatro cavaleiros com capacetes, aparentemente liderados pela serpente com cabeça de carneiro.
A cena do homem a mergulhar um dos soldados no que parece ser um caldeirão, pode ser interpretado como uma representação de sacrifício humano – sendo que a morte é causada por afogamento e a pessoa grande pode ser um sacerdote. O objecto semelhante a um caldeirão, pode muito bem não o ser, podendo tratar-se de uma representação simbólica de um tipo de fosso usado em lugares de culto e adoração Celtas, recintos rectangulares, onde restos mortais humanos são provas de algum tipo de sacrifício humano (Hachmann, Bericht der Römisch-Germanischen
Kommission 71.821 – 6).
Porém, tendo em consideração o fundo mitológico Celta, devem-se ter em atenção outras interpretações. A figura a mergulhar o guerreiro pode muito bem ser um Deus, e podemos estar perante uma representação do mítico caldeirão Celta da revivificação; veja-se o exemplo do conto de Branwen, no Mabinogi do País de Gales medieval, em que um “caldeirão do renascimento” (Peir Dadeni) revivificava guerreiros mortos em batalha (Gricourt, Latomus, 13.376 – 83). Pode ser isto que estamos a ver: os guerreiros mortos à espera de serem emersos no caldeirão, o que os traria de novo á vida, provavelmente noutro mundo, num banho da eternidade, após o qual seriam promovidos a cavaleiros e eram conduzidos ao Outro Mundo pela serpente cornuda.
Tal tema mitológico pode ter tido um paralelo ritual mundano – os guerreiros serem iniciados através de um caldeirão ritual, como o de Gundestrup, antes de uma batalha.
Apesar de tal interpretação poder ser feita com referência a posteriores mitos insulares Celtas, a possibilidade de esta placa ser entendida com referência à mitologia Trácia também é possível (Marazov, Thracian Tales on the Gundestrup Cauldron 66 – 70), deve dar-se ênfase a que não se encontra nada nos textos Celtas que seja reminiscente desta cena, excepto do suposto caldeirão da imortalidade.
Embora algumas das figuras do caldeirão sejam conhecidas num contexto Romano-Celta, nenhum dos motivos pode ser relacionado com histórias medievais. As tentativas de Olmsted de relacionar as cenas do caldeirão de Gundestrup com as cenas do Táin Bó Cuailnge (“The Cattle Raid of Cooley”) não são convincentes o suficiente para autores subsequentes (Kaul & Warmind, Reallexikon der germanischen
Altertumskunde 13.211 – 13). Apesar disto, pode ser afirmado que muitos dos símbolos e animais representados fazem sentido num contexto Celta. Touros, javalis e aves de rapina são importantes nos contos Irlandeses e Galeses. Por outro lado, golfinhos e elefantes não são mencionados em nenhum destes. As histórias Celtas também não estão cheias de animais fantásticos. Animais de tamanho e capacidades sobrenaturais são certamente numerosos, mas não criaturas que não são achadas na natureza, exceptuando talvez as relacionadas com a água.
Na iconografia da Trácia, animais fantásticos, assim como javalis, touros ou cabeças de touros, e aves de rapina são comuns. O Deus com uma roda, em uma das placas, pode ser identificado como um Deus Romano-Celta, uma variante de Júpiter, Taranis (Kaul & Warmind, Reallexikon der germanischen Altertumskunde 13.211 – 13).
A identificação do Deus cornudo, com torques e com a cobra com cabeça de carneiro, como Cernunnos parece aceitável por causa de semelhanças com várias representações Romano-Celtas de tal Deus. No entanto, as origens de tal Deus podem, alternativamente, provir do sudeste europeu ou de um contexto Helenístico-Mediterrânico, temporalmente próximo da fabricação do caldeirão (Kaul, Acta Archaeologica 66.18 – 22). Quando se lida com a iconografia e as várias interpretações, o caldeirão de Gundestrup revela óbvios sinais de origem culturalmente mista, e apesar de que muito do seu conteúdo é inteligível como parte da religião Celta, outras partes não o são (Kaul & Warmind, Reallexikon der germanischen Altertumskunde 13.213).



- Sítio Arqueológico de La Tène (págs. 1069 a 1071)

Interpretação (págs. 1070 a 1071)

Baseando-se nas principais características do local e dos objectos que lá foram encontrados, têm sido sugeridas uma grande quantidade de interpretações divergentes. Mesmo antes da primeira escavação oficial, a área tinha sido interpretada como uma aldeia sobre estacas no lago, devido às grandes estacas presentes no leito do lago, ou talvez um arsenal por causa da grande quantidade de armas encontradas. E. Vouga, baseando a sua interpretação nas estruturas e achados, afirmou que se tratava de um sítio urbano (oppidum) ou um ponto de observação da estrada que ligava os rios Rhône e Reno.
Joseph Déchelette tentou uma nova hipótese em 1914 e interpretou o local como um posto de alfândega para recolha de impostos, enquanto que Paul Vouga pensou que se tratava de um empório fortificado por uma paliçada e principalmente habitado por guerreiros e construído numa posição estratégica entre os rios Neuchâtel, Bienne e Morat. Na década de 1950, Raddatz e Wyss interpretaram o sítio como um local de culto. A sua teoria obteve o apoio de Rolle, que examinou vestígios de golpes em crânios humanos em La Tène, o que sugeria que sacrifício humano tinha ocorrido no local. Ao analisar as espadas, De Navarro propôs que La Tène era um local de culto que continha um recinto sagrado, delimitado por uma paliçada, e que os sacrifícios tinham sido feitos nas pontes.
Após a descoberta de outra ponte caída, em Cornaux, Schwab avançou com a teoria de que La Tène tinha sido uma vila com portos e pontes que foram destruídas após uma dramática ascensão das águas do lago Neuchâtel. Porém, a análise dos sedimentos na área de La Tène, feita por Berger e Joos, não indica sinal de inundação ou correntes fortes na zona das pontes (Dunning, Celts 366 – 8 ).
Recentemente, Müller retornou com a ideia de que o local era um santuário, estabelecendo paralelos com outros santuários claramente identificáveis como tal, como o de Mirebeau, Faye-Labesse e Gournay-sur-Aronde Gournay (Müller, Der Massenfund von der Tiefenau bei Bern 76 – 112).



- Lindow Moss (págs. 1158 a 1159)

Lindow Moss, perto de Manchester em Inglaterra, é onde foi descoberto um espantosamente bem preservado cadáver no pântano, o dito Homem de Lindow, um crânio parcialmente preservado, talvez de uma mulher, em 1984. O Homem de Lindow tinha aproximadamente 25 anos de idade, tinha uma barba e cabelo curto, tendo sido achado nu. Várias amostras de diferentes partes do corpo deste, foram datadas recorrendo a radiocarbono e crê-se que viveu no princípio do século V AEC (Stead et al., Lindow Man 29). Morreu devido a uma pancada na parte de trás do seu crânio, foi estrangulado e a sua garganta foi cortada, tudo numa rápida sucessão.
Isto pode servir como prova de sacrifício humano e morte tripla ou morte múltipla na mais antiga literatura vernacular Irlandesa (como no relato da morte do Rei Diarmait mac Cerbaill, por exemplo). Exames de raio-X mostraram que o Homem de Lindow tinha o maxilar fracturado e o pescoço partido. Além disso, tem sido sugerido que ele não morreu num ritual druídico, mas que era ele próprio um druida (Ross, Life and Death of a Druid Prince).
Os restos mortais do Homem de Lindow podem ser vistos no Museu Britânico. O nome de lugar Inglês Lindow é de origem Celta, correspondendo ao Galês Antigo Linn Dub que significa “charco negro”; a correspondente frase Irlandesa lionn dubh significa “melancolia”.




- Sacrifício de Animais (1548 a 1549)

O sacrifício de animais foi praticado num contexto religioso até ao advento do Cristianismo. Tal prática pode ter continuado num contexto secular na era Cristã: Giraldus Cambrensis dá uma prova de sacrifício de cavalos e o tarbfheis (“festim de touro” em Irlandês) também pode ser entendido como uma foram de sacrifício de animais.
O sacrifício de animais pode cumprir funções sociais e religiosas. Estas incluem livrarem-se ritualmente de animais importantes ou com especial significado, quer em termos de espécie ou a nível individual, ou o sacrifício de um objecto valioso em honra dos Deuses.
Nenhum destes normalmente envolve a consumição do animal sacrificado. Por outro lado, rituais que envolvem o alimentar e cuidar dos Deuses e antepassados, ou invocar a presença destes em eventos de cariz cultural importantes, provavelmente envolviam comer o animal sacrificado. Dados contextuais dos antigos Celtas rareiam, mas a função do sacrifício animal era provavelmente muito semelhante à do mundo Greco-Romano, em que qualquer dos conceitos acima mencionados são aplicáveis.
Restos mortais de animais descobertos em santuários pré-Cristãos fornecem provas de ambas as categorias de sacrifício.

1- Sacrifícios em que os animais eram comidos eram os mais difundidos. Porém, é difícil quantificar quantos animais eram sacrificados, em uma dada altura, e quantos participantes tomavam parte no banquete após o sacrifício. O facto de serem encontrados ossos animais em vários santuários (Ribermont-sur-Ancre, Bennecourt e Fesques), fornece provas de um conjunto de regras comuns para determinar a selecção do animal a sacrificar. O porco era o animal mais frequentemente escolhido (cerca de 75% dos restos encontrados), seguido de ovelhas e gado bovino. Outros animais também eram sacrificados, incluindo cães, mas tal é incomum. Em nenhum destes locais se encontraram cavalos nos restos mortais. Todos os cascos dos animais estavam faltando, o que provavelmente reflecte a forma de como as carcaças eram tratadas para serem cozinhadas.

2- Animais sacrificados que não eram comidos, principalmente gado bovino e cavalos, formam a segunda categoria. A maior quantidade de provas para este rito vem da Gália Bélgica (Belgae). Estes animais provavelmente nunca foram alvo de intenções de serem comidos; animais de trabalho raramente eram comidos. Eram invariavelmente animais adultos que parecem ter sido usados como animais de tracção ou como montadas. Foram mortos com uma pancada no crânio com um objecto rombo e as suas carcaças mostram sinais de terem sido deixadas a decompor-se sem serem enterradas. Durante esta fase, as cabeças, nomeadamente as do gado sacrificado, parecem ter sido propositadamente expostas. A prática mais comum era recolher os ossos sem carne dos corpos decapitados dos cavalos e do gado e colocá-los em valas. Este tipo de prática sobreviveu e evoluiu para novas formas no período romano (como em Vertault).



- Sacrifício de Humanos (págs. 1549 a 1552)

Da mesma forma que se obtém provas dos rituais Celtas e as crenças religiosas generalizadas destes através de autores clássicos, achados arqueológicos e possíveis reflexões na literatura Celta Insular, também se obtém provas deste modo para o sacrifício de seres humanos.
Todas as fontes têm de ser consideradas com cuidado: os relatos Gregos e Romanos dos antigos Celtas foram distorcidos pelas atitudes dos seus autores perante um inimigo visto como primitivo e, mais tarde, pelos seus descendentes coloniais. As provas arqueológicas de sacrifício de humanos são raras e a interpretação destas é difícil de fazer; as poucas referências na literatura Celta Insular foram feitas séculos após o cessar de tais práticas, filtradas através de atitudes Cristãs e provavelmente influenciadas por motivos de contos populares internacionais.
Porém, existem poucas dúvidas de que o sacrifício de humanos era praticado pelos Celtas Continentais e Insulares, apesar de a deposição de objectos inanimados e o sacrifício animal sejam melhor atestados em achados arqueológicos.

1- Fontes Clássicas

Existem numerosas referências em fontes Gregas e Romanas a sacrifícios de humanos. Os autores clássicos referem tal prática relacionando-a com certos Deuses. Cassius Dio, na sua obra História Romana, por exemplo, descreve o empalar de prisioneiras de guerra Romanas por parte dos Iceni num bosque sagrado à Deusa Andraste durante a revolta de Boudica (62.7.1 – 3). No entanto, a maior parte dos autores descreve o costume relacionando-o com druidas e os seus bosques sagrados. Os métodos usados incluíam disparar flechas, empalar, enforcar, esfaquear, afogar e queimar (Green, Exploring the World of the Druids 71).
Existem também várias referências à prática de divinação e comunicação com os Deuses através de entranhas e restos mortais humanos. A mais antiga das referências de sacrifício de humanos praticado por druidas figurava na hoje perdida obra de Posidonius, que foi citada nos escritos de Diodorus Siculus e Strabo e, possivelmente usados por Julius Caesar. Diodorus descreve o apunhalar de uma vitima no peito, por parte dos druidas, que então decifram o futuro “de acordo com a sua queda e convulsões dos seus membros e, sobretudo, da forma do jorrar do seu sangue” (Historical Library 5.31.3; Tierney, PRIA C 60.251). Também afirma que criminosos eram mantidos presos durante cinco anos antes de serem empalados “em honra dos Deuses” gods’ (Historical Library 5.32.6; Tierney, PRIA C 60.252). De acordo com Diodorus e outras fontes clássicas, os prisioneiros de guerra eram as vítimas sacrificiais de predilectas. Strabo gaba o facto de terem sido os Romanos que “puseram fim” ao sacrifício de humanos e que os Gauleses “costumavam apunhalar um ser humano que tinham condenado à morte nas costas, com um punhal e que previam o futuro estudando as suas convulsões… costumavam abater homens disparando flechas e empalá-los nos seus templos” (Geography 4.4.5; Tierney, PRIA C
60.269).
Caesar defendia que “aqueles que sofrem de sérias doenças ou estão no meio dos perigos de batalha, abatem seres humanos como vítimas sacrificais ou juram fazê-lo… Sacrifícios deste tipo também são oferecidos de acordo com as necessidades do estado… Acreditam que os Deus imortais deleitam-se mais com a chacina daqueles presos por roubo ou depredação ou algum outro crime, mas quando a reserva de tal gente escasseia, chegam a sacrificar os inocentes” (De Bello Gallico 6.16.2 – 5; Tierney, PRIA C 60.272). Em algumas instâncias, o que é denominado como sacrifício pode muito bem ser a execução religiosamente sancionada de criminosos. Caesar também escreveu que “apenas algum tempo decorreu desde que os escravos e clientres… amados pelo homem falecido são cremados junto a ele quando o funeral era propriamente executado” (De Bello Gallico 6.19.4 – 5; Tierney, PRIA C 60.273).
Estes três – Diodorus, Caesar e Strabo – referem-se ao queimar de criminosos, prisioneiros e inocentes em estátuas gigantes de palha e madeira ou construções de vime, que podiam ter a forma de animais ou humanos, como forma de sacrifício de “acção de graças” (Caesar, De Bello Gallico 6.16.4–5; Diodorus Siculus, Historical Library 5.32.6; Strabo, Geography 4.4.5), algo que tem fascinado os escritos modernos e realizadores de filmes.
Os escritores que vieram após Posidonius foram ainda mais condenatórios nas suas descrições. Lucan refere que os Treveri e os Ligures “que aplacam com terríveis vítimas o impiedoso Teutates, e Esus cujo selvagem santuário faz os homens tremer, e Taranis” (Pharsalia 1.444 – 6). Um comentário a este texto, do século IX, composto na Suíça e feito por um anotador que pode ter tido acesso a documentos há muito perdidos, entra em maior detalhe e refere que Taranis era apaziguado através do fogo, os sacrifícios a Esus eram feitos por apunhalamento e enforcados numa árvore e deixados a sangrar até à morte, e aqueles destinados a Teutates eram afogados (Green, Exploring the World of the Druids 78).
Na sua famosa passagem sobre a conquista de Anglesey (Môn), Tacitus refere a destruição de “lugares de selvagem superstição”, cujos altares estavam cobertos “pelas entranhas dos cativos” pelo governador Romano Suetonius Paulinus, “pois estava na sua religião encharcarem os altares com o sangue de prisioneuros e consultar os seus Deuses através das entranhas humanas” (Tacitus, Annales 14.30 – 31).

2- Provas Arqueológicas

Independentemente do conteúdo gráfico de tais descrições, explicitas provas arqueológicas de sacrifício de humanos como fazendo parte de rituais é rara. Frequentemente, os achados permitem mais do que uma explicação. Os locais mais importantes para o nosso entendimento das práticas rituais da Gália são um grupo de santuários em Picardie, França, nomeadamente o de Gournay-sur-Aronde, Ribermont-sur-Ancre e Saint-Mauren-Chaussée. Estes ainda estão em processo de escavação e como mais sítios do mesmo cariz estão a ser descobertos na área, mais provas podem vir ao de cima (Brunaux, Heiligtümer und Opferkulte der Kelten 55–74).
Por enquanto, todos contêm restos mortais de guerreiros ou prisioneiros de guerra (juntamente com uma substancial quantidade de armas) que ou caíram em batalha ou que foram sacrificados – embora não necessariamente no interior do santuário – possivelmente agradecendo aos Deuses por uma vitória. Todos os esqueletos foram decapitados e parecem ter sido expostos individualmente ou em grupo dentro do espaço sagrado (Haffner, Heiligtümer und Opferkulte der Kelten 30).
Em Gournay-sur-Aronde, ossos de humanos adultos que tinham sido decepados com ajuda de uma faca foram descobertos. Num sítio diferente dentro do recinto, seis crânios que tinham sido cuidadosamente preparados e mostravam sinais de terem sido exibidos, foram encontrados (Brunaux, Heiligtümer und Opferkulte der Kelten 64).
Os achados mais espectaculares até à data têm vindo de Ribermont-sur-Ancre. Dentro de um espaço de 60 metros quadrados, foram achados mais de 10.000 ossos humanos e centenas de armas que foram descobertos numa posição que parece indicar que tinham sido mantidos erectos para exposição, cuidadosamente unidos uns aos outros. Como nenhum crânio foi achado nesta parte do sítio arqueológico, presume-se que foram decapitados antes de serem exibidos. Mais uma vez, podem muito bem ter morrido em batalha (sendo que neste caso as suas cabeças foram cortadas como troféus no campo de batalha). Porém, podem igualmente ter sido vítima de sacrifício (Brunaux, Heiligtümer und Opferkulte der Kelten 70). Em outros dois espaços dentro do santuário, campos de ossos foram descobertos, com os ossos mais longos empilhados transversalmente e longitudinalmente para formarem um quadrado, cujo interior estava cheio de ossos pélvicos dispostos à volta de um fosso em que mais ossos tinham sido queimados (Brunaux, Heiligtümer und Opferkulte der Kelten 72 – 3).
Outros dois bem conhecidos sítios arqueológicos da Europa sugerem que era praticado sacrifício de humanos na Boémia. No santuário de Libenice, ossos humanos e animais foram achados em fossos e, no meio do recinto, havia um corpo feminino que pode ter sido uma sacerdotisa ou mulher sacrificada (Green, Exploring the World of the Druids 57). Na macabra caverna de Býciskála, foram achados cadáveres de cerca de quarenta pessoas, na maioria mulheres, cujas cabeças, mãos ou pés tinham sido removidos. Crânios humanos também foram encontrados, mas estavam separados dos outros restos mortais (Green, Exploring the World of the Druids 84).
Entre outros achados arqueológicos que parecem atestar o sacrifício de humanos, o famoso caldeirão de Gundestrup representa (possivelmente) um homem a ser afogado no que parece ser um fosso profundo, poço ou tanque, uma forma de sacrificar reminiscente da passagem do comentador de Lucan relativamente às vítimas de Teutates e, possivelmente, com paralelos na antiga literatura Irlandesa.
Os ditos corpos de pântano (bog bodies) – restos mortais humanos bem preservados que podem ser ossos isolados e membros ou corpos interiores – recolhidos em turfeiras por todo o norte e oeste da Europa, constituem prova arqueológica inequívoca de sacrifício de humanos.
O corpo de Lindow Moss, o mais famoso destes corpos, sofreu uma morte tripla, conhecida na literatura Celta Insular, antes de ser submergido em água, nu e com o seu corpo pintado (Turner, Bog Bodies 10–18; Cunliffe, Ancient Celts 192).
O segunda vítima masculina, o “Homem de Worsley”, descoberto em 1958, a apenas 20km de Lindow Moss, e também datado da Idade do Ferro pré-Romana, “tinha sofrido ferimentos suficientes para fracturar o topo do crânio e tinha uma corda atada à volta do seu pescoço” e “a sua cabeça tinha sido separada do corpo pela segunda vértebra” (Garland, Bog Bodies 107). É interessante realçar que este, como alguns outros corpos de pântano, tinha uma disformidade física – um segundo polegar vestigial (Green, Exploring the World of the Druids 80 – 1) que talvez tenha sido visto como sinal de um estatuto ou destino especiais.
Um importante achado Irlandês é um homem da tardia Pré-história vestido apenas com um manto de cabedal, em Gallagh, Co. Galway (Contae na Gaillimhe). A presença de algumas varetas de salgueiro à volta do seu pescoço e duas estacas pintadas de cada lado do corpo, podem indicar actividade sacrificial (Ó Floinn, Bog Bodies 137 – 45).
Apesar de pesquisas recentes terem revelado mais detalhes acerca destes corpos, a sua análise contínua também tem contribuído para levantar a questão de se se tratam de vítimas sacrificais (Briggs, Bog Bodies 104 – 7). Ossos humanos ou fragmentos de corpos têm sido descobertos em vários antigos locais habitados nas Ilhas Britânicas, mas é difícil saber se foram vítimas de sacrifício ou não.
Os candidatos mais prováveis são os esqueletos masculinos completos, que foram encontrados debaixo do baluarte de um forte, como o homem descoberto num fosso atrás do baluarte no Sul de Cadbury Castle, cuja posição sugere que estava atado. Pode ter sido colocado lá para que o seu espírito magicamente protegesse o forte (Green, Exploring the World of the Druids 77).
Dois túmulos de crianças foram descobertos nas fundações de Uley e em Maiden Castle e podem ter tido a mesma função (Woodward, Shrines and Sacrifice 79).
Em alguns túmulos, como os de Hohmichele e Wetwang, os restos mortais de vários membros de uma família, ou várias inumações, estão presentes, e alguns dos quais podem ter sido sacrificados para acompanhar o falecido na vida no Outro Mundo, confirmando a relevante passagem na descrição feita por Caesar.
A mais antiga prova de sacrifício de humanos vem de um círculo de madeira do começo da Idade do Bronze, que pode ter sido construído entre 3500 – 1500 AEC, e que foi escavado em Sarn y Bryn Caled, perto de Welshpool (Y Trallwng) no País de Gales (Cymru) em 1990 e 1991. Um fosso central continha ossos cremados de jovens adultos, juntamente com quatro pontas de flecha em sílex de alta qualidade, que mostram sinais de terem estado no interior dos corpos enquanto estes ardiam. Isto pode indicar que as vítimas foram mortas pelas flechas, quer em guerra ou como parte de um ritual (Gibson, Proc. Prehistoric Society 60.143 – 223).

3- Referências na literatura Celta Insular

O relato acerca de Teutates tem sido comparado com as mortes por afogamento num tanque de hidromel, cerveja ou vinho dos dois reis Irlandeses Diarmait mac Cerbaill e Muirchertach mac Erca. Nos contos Irlandeses, o rei é ferido, a causa em que este está preso arde e, por fim, este perece num tanque de licor enquanto tenta escapar ás chamas.
De acordo com Mac Cana, “o facto de esta morte elaboradamente planeada acontecer em Samhain… sugere que estamos perante um tema mitológico recorrente e, mais especificamente, um mito relacionado com a realeza sagrada” (Celtic Mythology 27).
Na história fantástica de Gwrtheyrn, o rapaz Ambrosius e os Draig Goch de Historia Brittonum, os magos do rei indicam-lhe que sacrifique uma criança órfã de pai e que aspirja o seu sangue num forte para assegurar que este é construído com sucesso. Esta história parece ser uma sobrevivência de uma crença que justifica os túmulos de crianças debaixo dos fortes Britânicos acima mencionados. Eventos das vidas dos santos possivelmente preservam noções de sacrifício de humanos como, por exemplo, santo Oran que se voluntariou para ser enterrado debaixo das fundações de Iona (Eilean Ì) de modo a consagrar o solo (Nigel Davies, Human Sacrifice in History and Today 46).



- Depósitos Aquosos e Sacrifício de Humanos (pág. 1751)

Restos mortais humanos são comummente descobertos em depósitos aquáticos. O mais famoso achado deste tipo é o “Homem de Lindow”, mas o sítio arqueológico do lago de La Tène e vários poços proporcionam tais achados (Haffner, Heiligtümer und Opferkulte der Kelten 41). Tais achados são frequentemente interpretados (provavelmente de forma correcta, na maioria dos casos) como restos mortais de vítimas de sacrifício de humanos. O corpo do Homem de Lindow foi descoberto numa turfeira em Cheshire em 1984. A vítima mostrava sinais de ter sido submetida a uma tripla morte (Ross, Lindow Man 162 – 4) por garroteamento, cortar da garganta e afogamento no charco da turfeira. A morte tripla aparece como tema literário nos antigos contos Irlandeses; por exemplo, Diarmait mac Cerbaill, rei de tara (Teamhair), supostamente morreu por afogamento num tanque de cerveja, numa casa a arder e foi então decapitado.
Provas de práticas semelhantes têm sido encontradas em outros locais. Alguns dos esqueletos de La Tène, por exemplo, mostram marcas que pancadas na cabeça (Dunning, Celts 367 – 8 ), e um dos esqueletos completamente preservados de La Tène, aparentemente ainda tinha uma corda à volta do pescoço quando foi descoberto (Pauli, Archäologie der Schweiz 14.130).
Restos humanos recuperados de poços, por vezes parcialmente queimados e por vezes ossos isolados, têm sido interpretados como restos de sacrifícios de humanos.

Manuel Araújo
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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Sab Jul 23, 2011 9:29 am

Por Rēus!

Maravilha Manuel, ótimo trabalho!!! E bem rápido!
Very Happy
Vou tentar ajeitar meu tempo aqui pra traduzir umas partes relacionadas aos festins e manjares. Desde já agradeço (e penso que qualquer pessoa que veja este fórum também).

OFF: estava pensando em deixar o fórum não visível para os visitantes (deixar visível para qualquer um apenas a seção sobre os deuses - pois há muitos links para ela em blogs e tal), que achas? (acho melhor me responder em MP).

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

Mensagem  Manuel Araújo em Sab Jul 23, 2011 7:38 pm

Obrigado, foi um prazer poder contribuir. Embarassed Smile Se quiseres, posso fazer mais traduções após segunda-feira.

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Re: Sacrifícios: metafísica geral

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