Gortigai: interpretando as tesserae de amizade

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Gortigai: interpretando as tesserae de amizade

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Seg Jul 25, 2011 8:34 am

Este post foi originalmente postado no site Senakokredima - pretendo revê-lo e corrigir eventuais erros mais tarde.

Os tratados de amizade, que os romanos chamavam tesserae de hospitalidade, eram uma prática celtibérica bastante espalhada como têm mostrado a arqueologia. As tesserae (gortigai em celtibérico) são documentos que os registravam. Pela epigrafia e arqueologia supomos que havia uma legitimação religiosa ("rubricação" > ruzounei em celtibérico > "tornar vermelho" equivalente para o latino rubricare vd. STIFTER, David. Contributions to celtiberian etymology II. In Palaeohispanica. v.6. Zaragoza: Instituto "Fernando el Católico", 2006.), provavelmente por meio de um sacrifício (há uma relação de cor óbvia entre o "sangue" da vítima e o "tornar vermelho"). Isso faz sentido em relação a maioria das tesserae com formas animais (que então representariam a vítima). Estes tratados eram feitos entre homens (líderes, supostamente), ao que podemos imaginar, para assegurar a paz, livre passagem ou sustentar preferências de ajuda bélica, comércio, etc.

Podemos postular a sequência hipotética:

  • 1 - Afirmação das intenções.
  • 2 - Proclamação dos juramentos, o "atamento" destes pelo sacrifício e a garantia das testemunhas
  • 3 - O registro da tessera.



Penso que 3 pode ser parte de 2: registrar algo por signos pode ser visto também como uma prática mágica. Podemos supor a metafísica do sacrifício também, o sangue ou a vida do animal sendo um presente aos deuses (para que assegurem a observância do tratado, ou ainda para chamar a atenção deles como testemunhas - afinal é mais difícil de se quebrar a palavra quando se acredita que os deuses não deixarão isto passar incólume) ou como o "material" necessário para o correto "atamento/selamento/amarração" mágica entre as intenções, palavras e o registro material. Ou ainda outra função metafísica que me escapa no momento.

Então, podemos ver algo válido para nossos dias e contextos?
Acredito que podemos postular contextos similares, que resultam em certas dificuldades, mas que podem ser contornadas.

I.
Por meses tenho sentido que a parte litúrgica da ADF sobre os 'Forasteiros' é uma espécie de "tratado de hospitalidade". Mas ao invés de outro líder tribal ou tribo, tem-se os 'Forasteiros' que doravante chamarei de pelo termo celtibérico esgeninoi e pela construção provável em lusitânico esgenicoi < de *exs-geno-iko- "aquele que não pertence ao grupo sanguíneo, gente" (uma noção que engloba Genii Loci, Entidades Nativas e mesmo Ancestrais hostis à nós); aqui não é espaço para discutimos esta noção, mas apenas para mencioná-la. Mas isto implica em algumas dificuldades, como estas: 1) as tesserae de hospitalidade eram feitas entre humanos, então o que sugere que as possamos fazer com "não-humanos?" 2) nos casos Americanos, como nós (descendentes de europeus) "impomos" uma tratado de 'amizade' com as Entidades Nativas tendo os deuses europeus como referência, através de uma língua e modos europeus (ou não soa etnocêntrico)? E 3) como podemos fazer isto?

II.
Para 1) suspeito do seguinte. Postular este tipo de prática para os Genii Loci não é necessariamente uma ofensa (equalizando-os aos humanos): podemos ver coisas deste tipo na mitologia irlandesa e mesmo em relação à deuses, como quando Fionn preparava-se para atacar o Brug de Oengus e fez paz com ele (MACCULLOCH, John A. Celtic Mythology. Mineola: Dover, 2004. p. 126). Mesmo que alguém assegure que há dificuldades e que devemos desconsideremos os exemplos da mitologia irlandesa, penso que podemos retorquir com os seguintes argumentos. Não penso que seja uma ofensa por i) reconhecermos o poder e a força deles (os em nos causar mal direta ou indiretamente, ii) desejamos fazer paz com eles buscando de boa mente um tratado de respeitabilidade mútua e não-agressão e iii) os nativos parecem realizar procedimentos "parecidos" ao adentrarem nas matas, deixando presentes, etc.

Isto nos leva a 2): não é necessariamente uma imposição etnocêntrica. Etnocêntrica, provavelmente, mas afinal, o que não é (em referência à ἔθνοι diferentes)? Além de que, como sugerimos acima, os Nativos terem procedimentos para os mesmos fins que se não nos soa adequado apropriar-se deles, pelo menos estudá-los para vermos que oferenda é mais adequada e como deve ser posta, etc. E não impomos isto; podemos estabelecer por mútuo consentimento. Como?

Isto nos leva a 3): pela consulta oracular. Ok, alguém pode dizer: "como saberemos se o oráculo é realmente a resposta das Entidades e não nossas projeções?". Penso que esta questão é a mesma que "como podemos saber se estamos lendo corretamente o oráculo?". Eu não sei. Suspeito que podemos postular um contexto de confiabilidade que possa diminuir a margem de erro as interpretações; como as pessoas fazem em se tratando de qualquer oráculo (geralmente, subindo/fortalecendo os critérios para as interpretações).

III.
Apresentaremos um esboço simples que busca ser funcional e pode ser adaptado livremente. Evidentemente que como é uma prática celtibérica, tomamos o foco celtibérico (língua, etc.). Mas nada impede, a priori, de se direcionar para focos culturais célticos diferentes. Claro, apenas seria interessante rever certas coisas (por exemplo, num foco Gaulês talvez fosse adequado voltar algo do rito para afugentar as entidades que os gauleses chamavam de Namus > entidades que causam discórdia e inimizade, etc.)
Primeiro, me parece que uma tessera de amizade é algo feito em certa ocasião (ao construirmos um nemetom, ou ao realizar um rito em um pela primeira vez) e com certa regularidade (a cada lunação, estação, ano). Neste sentido, me parece razoável certa familiaridade com o lugar o que permite uma melhor postulação das oferendas, a tessera, a maneira e o momento de realizar.

Considerações prévias:
-Como colocado acima, isto é uma reconstrução livre adaptada aos nossos dias que consideramos adequada. Em nenhum momento se pretende violar qualquer lei ambiental/animal ou promover ações de depredação/exploração desenfreada de qualquer bio-região.
-Apesar da prática ser atestadamente celtibérica, colocaremos as prováveis construções linguísticas equivalentes em lusitânico. Cabe ao usuário escolher a língua ritual.

O que é necessário:
*oferenda primicial: mel, grãos, fumo, cerveja ou outra oferenda cuja aceitação por parte dos Esgeninoi seja averiguada.
*oráculo: algum instrumento ou arte divinatória que se considere adequada para esta função.
*vítima/oferenda principal: azeite, alimento (frutas, grãos, etc.) ou uma planta viva.
*a górtiga e o material necessário para registro: isto pode ser várias coisas, pedra, madeira, etc. o instrumento para o registro vai variar dependendo do material - se for madeira, um pirógrafo ou faca para entalhe, etc.

Rito:
a) Afirmação das intenções.
O Bintis (o "assegurador", o condutor da liturgia, oficiante para este procedimento) proclama:
kei karantiam nitiubos anatiubos t'ambitinkounei emuz , seidom anetlom'kue agarimuz uta soz atiberimuz
quid emmu d'ambidigonī carantiām con nitiobo anatiobo, aggarimu sīdom indi anectlom indi atteberomu sod
"aqui estamos para constituir a amizade com o povo local , invocamos paz e proteção e ofertamos isto"

É feita a oferenda primicial.

O Bintis novamente:
sua, ma ansona kar esti t'umei arkimuz
sua, arcimu ma carantiā ansōm d'umē

"assim, perguntamos se há para vós nossa amizade"

O Áugure realiza uma prece pela validade e correta leitura do oráculo e realiza a consulta; ele/a declama a resposta e caso seja auspiciosa, o rito segue.

b) O juramento e o sacrifício.
O Bintis pega o material para a górtiga e proclama à todos:
ueizoi bietuz!
vīssoi biiete!

"sejai testemunhas"

Estendendo a mão direta do jurante, o Bintis diz para o jurante repetir:
mouam toutam tongetio to'deiuui tongu, eni'kokueislai, kei to guezounei atibertounei'kue deiuubos bisiomuz
tongu dēvō tongetio toudām mou, in compesla, cii bisiomu do guedia indi do attebertobo ad dēvūs

"juro pelo deus que minha tribo jura, em consideração, aqui estaremos para orar e sacrificar aos deuses"

O jurante pondo a mão direita sobre o peito, diz:
gortigam asisegamoz, neko nemos uer'kuenda ansona tuzeti, talamu ueseti'kue nos akorseti ekue mori tegeseti'kue nos komaregiseti
dercisiomu gortigām, neceti nemos tussetio ver penna ansōm indi talamū bungisetio indi nos vesset, indi mori macisetio indi nos tegiset.

-"observaremos o tratado, ao menos que o céu caia sobre nossas cabeças, a terra se abra e nos engula e o mar suba e nos cubra"

O áugure pergunta:
ma asisegate sam gortigam arkimuz
arcimu ma dercisete sām gortigām

-"perguntamos se observarão o tratado"

É consultado o oráculo novamente por meio do AU que declama o augúrio.
Caso seja favorável, o Bintis soa um chifre e chama todos para o sacrifício (oferenda principal), a vítima é preparada, e após este ser realizado diz:
sa gortiga teiuoreikis bueti!
sā gortigā dēvorēcis bueti!

"esteja/seja este tratado atado-pelos-deuses/inviolável!"

Parte do sumo da planta ou do azeite é derramado sobre a górtiga.

c) O registro.
O Bintis (ou outro nome para função semelhante) registra a tessera de hospitalidade em signos ibéricos e no idioma celtibérico, pela fórmula:

x (pessoa, líder-viros veramos, grupo > no nominativo) de y (cidade > genitivo singular) ou forma adjetival (patronímico, nominativo) + kar ("amizade").

p.ex. nemetios:ibuaranas:kar ("Nemetios de Ypuaranas - amizade") ou birizioka:kar ("amizade brigaeca" i.e. do grupo Brigaecoi).

É realizado um pequeno banquete com o restante da comida e separado uma porção que é dedicada aos Esgenicoi. A górtiga é deixada no altar local ou onde o grupo decidir.

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