Lugunassadis / Lugunasatis (originário da lista Recons-IberoCeltica)

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Lugunassadis / Lugunasatis (originário da lista Recons-IberoCeltica)

Mensagem  Manuel Araújo em Qui Set 01, 2011 10:08 am

Da autoria de M. Diniz Nemetios
(Terça-Feira, 18 de Janeiro de 2011)

Aqui no hemisfério sul, estaremos celebrando o Lugunassadis ("atamento/contrato/casamento de Lugus", do Proto-Céltico *Lugu-nadsk-áti-, do verbo *nad-sk-e/o- "atar, conectar, amarrar", irlandês antigo 'naisc'). Como o culto ao deus Lugus fora atestado, até agora, apenas na região da Callaecia e na Celtibéria, é interessante que sejam tais os focos culturais.

Grosso modo, a julgar pelas evidências próximas do restante do mundo céltico (da Gália do tempo de César até as tradições folclóricas dos atuais países celtas, em especial a Irlanda), na ocasião tínhamos:
*Feiras livres (para venda, troca, compra, seja da colheita nova, etc.)
*Acontecimentos jurídicos, políticos e comerciais (tomada de juramentos - inclusive bélicos, fechamento de contratos válidos até o ano seguinte ou em menos tempo, casamentos, etc. Alguns autores pensam que seria nesta data que as irmandades de guerreiros das tribos ibéricas, que muitas vezes se isolavam pelas serras e montes, desciam a comunidade para participar das festividades e realizar a culminação de ritos de iniciação guerreira, etc. vd. SOPEÑA, Gabriel. An ambassador in wolf's clothing: brotherhoods and initiation's rituals - Celtiberian Ideologies and Religions . E-Keltoi #6)
*Jogos e competições em geral (sejam jogos guerreiros, ou intelectuais - como competições de poesia, eloquência, etc.)

Ainda sim, a festividade se relaciona a grandes mercados públicos (que concentravam gente de todos os tipos) ou ao topo de montes ao ar livre, onde a parte mais "religiosa" era realizada. E que parte era essa? Basicamente um rito de proteção da colheita (do colhido e dos coletores) de agora e empoderamento da colheita vindoura, além de um sacrifício de agradecimento à Terra e ao deus Lugus (sejam pelo aspecto 'tôutico' - do comércio, ligações, viagens, prosperidade econômica, etc. - seja pelo aspeto 'natural', que a julgar pela tradição irlandesa, Lugus se relaciona ao raio das tempestades de verão onde derrota um monstro/entidade demoníaca, causadora da seca e da praga nos campos - que arrasam as colheitas e o plantio); além de, claro, ser uma oportunidade para realização de ritos de passagem ou de reconhecimento formal/juramentos.

Sendo mais preciso, na Ibéria, vd. PEDREÑO, Juan C. O. Celtic Gods of the Iberian Peninsula. E-Keltoi, #6 - vejam a parte sobre o deus Lugus. Eu (leiam bem, EU) interpreto os epítetos associados ao deus na Ibéria, da seguinte forma:
*Arcienos (Arquienos, Arccienos, Arcius) > do *PrC: *arkenno- "sapato", sendo pois, "sapateiro"; ou ainda do verbo *ark-e/o-, "prevenir" > "prevenidor"; ou ainda de *arkw-ie/o- "lançar, atirar" > "atirador, lançador (do dardo ou da funda)"; ou ainda menos provavelmente, no meu ver, de *pharkunyo- "montanha" > "montês".
-relativos à Mercurius/Hermes
*Visugios > PrC: *witsú-kyo- "o que é conhecedor, sábio" ou de *witsu-sagyo- "o que procura conhecimento, sabedoria; filósofo". Ou lendo Vísugios, de *wesú-kyo-/wísú-kyo- "excelente, ótimo".
*Coluális > ?
*Dévorís > PrC: *deiwo-ríg- "rei divino" ou "rei dos deuses" (atribuído a Hermes, já na região lusitana).
*Vasegos > PrC: *wo-sego- "conquistador, triunfante, dominador" ou de *wosto-áko- > *wossáiko- "subordinador; dos subordinados", ou menos provavelmente do verbo *wa(x)-ske/o- "pressionar" > "pressionador" (também na região lusitana).

Para a Terra, que segundo o mito irlandês, fora a deusa Tailtiu, filha de Mag Mór, o lento, da Hispania , mãe de criação de Lugh que morrera ao terminar de arar os campos (uma grande extensão de terra) para a semeadura. Para os celtibéricos, podemos considerar as Matres ou as deusas Duillas (que me parecem também aspectos da *Deusa-Terra); para os calaicos (no sentido amplo, que engloba parte dos astures, cantabros, etc.), temos as Matres também, ou a deusa Nabia no seu aspecto mãe.

Para os de foco estritamente lusitano, há quem defenda que o deus Arentios seja funcionalmente equivalente. Para a *Deusa-Terra, temos a deusa Deva e provavelmente, a deusa Amma.

Em breve posto os hinos que utilizaremos.**

(...)

Comentários, dúvidas, críticas, sugestões?
Inté!

:m:d:
:pb:

** - os hinos posteriormente postados na lista estão disponíveis, neste fórum, aqui e aqui.

Manuel Araújo
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Re: Lugunassadis / Lugunasatis (originário da lista Recons-IberoCeltica)

Mensagem  M· Diniz Nemetios em Dom Jan 22, 2012 1:40 pm

Aspecto geral.

É uma festividade eminentemente comunitária e o rito reflete isto. O ideal seria um evento que durasse pelo menos uma semana (os relatos irlandeses indicam que durava mais de 15 dias), aberto ao público em geral, com uma feira livre, palco para apresentações artísticas e com torneios diários - abertos a qualquer um que se inscrevessem. As modalidades de competição seriam basicamente de dois tipos: os jogos físicos/de habilidade (tiro ao alvo com arco, combate de espadas de madeira, combate físico, cabo de guerra, corridas, e coisas modernas como Rugby, futebol, etc.) e mentais (jogos do tipo xadrez, resolução de enigmas, competições poéticas e de eloquência e mesmo algo como um concurso de bandas e artistas musicais, etc.). Obviamente que isto dependeria de uma baita estrutura - que se possível, poderia ser montada em parceria com um poder público, etc. - local amplo, palco, barracas para feira, banheiros, som e iluminação, etc. A cerimônia propriamente religiosa seria apenas uma parte disto tudo, provavelmente o cume no evento, ao final, sendo os campeões dos torneios tomando parte do rito em uma dada parte (para serem "abençoados" e receberem, formalmente, troféus, etc.). Seria uma ocasião também da tomada de juramentos e votos diversos (inclusive de casamento) que seriam reservados como parte do rito também. Realizar-se-ia um banquete final, com direito a Porção do Campeão, e caso necessário com rodadas rituais de brindes (ainda não postei nada disso, apesar de ter uma estrutura básica - postarei depois) e libações.

Obviamente que isto seria o ideal. Para estruturas e público mais modesto, o básico da celebração comunitária seria 1) as homenagens e oferendas aos deuses da ocasião, assim como o momento de tomada de juramentos e votos formais; e 2) o reconhecimento/homenagem aos campeões das disputas realizadas e realização de uma pequena refeição comemorativa/banquete.

Deuses da ocasião.

Basicamente, pelas evidências hibérnicas, sacrificar-se-á ao poderoso *Lugu- (a quem seriam dedicados os jogos) e a *Talomon-tyon-, nome hibérnico de uma deusa de cunho agrário (como já relatado acima) tida pelos irlandeses como mãe-adotiva do deus. Talvez a deusa gaulesa Rosmertā ("muito provedora", epigraficamente representada com uma cornucópia e demais signos de abundância de frutos/colheitas, etc.) apresentada como consorte do Mercurius gaulês, seja um antecedente. Neste caso, teremos também homenageada uma *Deusa-Terra em seu aspecto de provedora (e Mãe, de certo modo), retribuidora do trabalho humano (agricultura, etc.).

-Celtibérico/Astures/Galaicos do norte: Lugus (seria mais adequado historicamente honrar a divindade do modo múltiplo como majoritariamente fora feito na península Ibérica, ou seja os Lugues) e as Matres (no caso dos galaicos do norte, talvez e/ou, Naviā).
-Galaicos do sul: Durvēdicos? (talvez seria o caso de adotar o culto ao Lugus dos galaicos do norte) Densos (divindade da tribo dos Zoelae)? as Matres (e talvez Naviā)
-Lusitanos: Arantios, Collovos, Rūnesos? Matres, Arantiā, Lāniānā ou talvez Lacibiā (Trebopalā?)
-Vetões: Vriloucos ou Favilios? Ilurbedā.

Há ainda, uma certa indicação no mundo hibérnico do culto ao deus "obscuro" relacionado também a fertilidade, no caso Cromm Cruach (*krumbo- *kroukā "penhasco/colina pedregosa/monte de pedras redondo") da observância e homenagem a esta divindade. Para os galaicos do sul e lusitanos (mais do centro-norte) seria Crougiā, para os Zoelae (galaicos do sul) provavelmente Laesos, para outras tribos lusitanas Laebos; para os galaicos do norte, talvez Regō; para os celtibéricos e astures não nada muito claro, talvez a divindade aquitana/basca Larrahis, ou o deus celtibérico Beremustā. Aceito sugestões (especialmente das pessoas que prestam culto a estes deuses).

Esboço geral do rito.

  1. Preparações do local, materiais e oferendas*.
  2. Reunião dos participantes, purificação dos mesmos (pode ser por ablução ou fumigação), entrada no santuário¹.
  3. Chamada, declaração de propósitos, acendimento do Fogo Sagrado e oferendas primiciais (caso o oficiante considere necessário, às Entidades Locais e aos Ancestrais também).
  4. Rito em si: recitação de um poema/conto relatando os feitos do deus da ocasião² ou hino em honra do deus; empoderamento da lança³ e convite aos campeões; sacrifícios principais e hinos em honra aos deuses da ocasião (1- ao deus, 2- a deusa e - se antes referido, 3- ao deus de caráter mais fertilizante, submúndico; esta ordem pode ser revista pelo oficiante de acordo com seu entendimento e percepção). Outra alternativa de realização ritual é a seguinte: são trazidos cestos e pratos que representem as colheitas (de alimentos, ou de projetos e aquisições comunitárias) por mulheres que ao entregarem dizem o que representam, etc. É trazido um símbolo de forças naturais caóticas que podem ameaçar tal colheita/maturação (pode-se pensar em muita coisa, de ratos, a serpentes, passando por figuras míticas, ou mesmo representações dos três tabus lançados por Arianhod para que o filho não alcançasse a maturidade: nome, armas e uma esposa; ou algo a se ver) e utilizado o empoderamento da lança para triunfo/destruição deste símbolo e do asseguramento da colheita/maturação dos cestos e pratos representativos. Este podem ser ofertados e utilizados na refeição festiva. Ambas ideias devem ser desenvolvidas e pensadas previamente pelo oficiante e visto com os auxiliares de antemão.
  5. Augúrio pela aceitação dos sacrifícios e preparações das bênçãos.
  6. Entrega de troféus e passagem da lança para um campeão eleito (ou escolhido como representante dos demais), abertura de espaço para tomadas de juramento e votos, casamentos, etc. bênção dos participantes, alimentos e bebidas.
  7. Banquete/refeição festiva; o oficiante determina a porção do campeão e a entrega, caso haja desacordo é travado uma competição simples e rápida para saná-la (em alguma modalidade decidida na hora, que seja rápida e de comum acordo do desafiante e desafiado), rodada de libações e brindes aos deuses da ocasião. A refeição pode ser acompanhada de música, etc.
  8. Libações finais e agradecimentos aos deuses (e Ancestrais e Entidades Locais, caso honradas também). Caso o banquete/refeição festiva continue (ou vise continuar) por muito tempo, podem o oficiante e os auxiliares realizar a finalização do rito após o começo do banquete (ou mesmo antes deste começar de fato); agradecimento ao fogo sagrado (que preferivelmente deve ser deixado a queimar até apaga-se por si), chamada, saída do santuário.
  9. Término, destinação adequada das oferendas, caso não tenham sido destinadas antes, organização, etc.


-----
*Isto compete, geralmente, aos auxiliares e ao oficiante/sacerdote, mas caso haja uma pequena fogueira ou enfeite do local, etc. os outros participantes podem ajudar muito.
¹Caso não haja um santuário erigido/estabelecido de antemão; o sacerdote/oficiante e auxiliares devem se responsabilizar por erigir e preparar devidamente (com o rito próprio e/ou procedimentos "mágicos") um local adequado para o culto, de preferência antes do rito em si.
²A tradição literário medieval dos celtas insulares apresenta muito material para isto, seja nos contos relacionados a Lugh ou a Lleu.
³Basicamente, ação do oficiante em pegar a lança, falar sobre seu significado e rogar ao deus da ocasião para que este empodere a lança como símbolo de poder divino, passando-a sobre o fogo 3x (caso deseje, o oficiante pode desenvolver um encantamento próprio para pronunciar neste momento, etc.).

Oferendas e materiais.
  • Temas decorativos: corvos, lança, sapatos, bolsa (e talvez cavalos brancos); cornucópia, frutos agrícolas, cestas de colheita (e hastes de trigo).
  • Materiais: uma lança, troféus (vírias, torques, etc.)
  • Louro e incenso, bebida alcoólica, pão, moedas, e itens de valor comunitário (poemas, estatuetas, frutos, etc.) ou representativos destes para o deus da ocasião; frutos (preferencialmente derivados destes, como doces, geleias e mesmo sucos), grãos (pão cai bem, novamente) ou hortaliças, flores e artesanatos com trigo, etc. a deusa da ocasião; bebida alcoólica, grãos para o deus fertilizante/associado à morte, etc.


Detalhes.
-O altar pode ser enfeitado com pedras (há certa relação entre montes de pedras - chamados em grego de ηρμα de onde HERMES, identificado com o latino MERCVRIVS, fronteiras, marcos viais, encruzilhadas, acesso ao outromundo, etc.) e erigido no ponto mais eminente do local, se possível.
-As oferendas aos deuses da fertilidade, devem ser depositadas em fosso cavado na terra previamente, ou então depositadas em um recipiente próprio para depois serem depositadas na terra ou serem expostas aos pés de árvores (em uma mata/bosque) ou locais naturais propícios sobre o solo. As oferendas ao deus da ocasião podem ser queimadas (pode-se fazer uma pequena fogueira, caso hajam oferendas maiores) ou depositadas em recipiente próprio e depois postas em montes de pedra em estradas, caminhos, e/ou encruzilhadas.
-Os juramentos da ocasião serão presididos pelo deus da festividade e devem ser feitos com braço direito estendido sob o Fogo Sagrado, ou com braço estendido tocando os dedos nas pedras do altar. Neste caso e no de haver casamentos, o oficiante e os auxiliares devem organizar as liturgias e procedimentos específicos de antemão.

Há mais coisas a tratar e detalhes a pensar, sem contar pontos a rever ou a serem melhor elucidados/aprofundados com mais estudos. Por hora, paro. Críticas, sugestões? Por favor, posta-as aqui.

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