Solstício de Inverno (originário da lista Recons-IberoCeltica)

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Solstício de Inverno (originário da lista Recons-IberoCeltica)

Mensagem  Manuel Araújo em Qui Set 01, 2011 10:23 am

Da autoria de M. Diniz Nemetios
(Quinta-Feira, 18 de Junho de 2011)

Slaniá

Eu iria postar isto apenas para uma pessoa, que havia me contactado, mas decidi postar para todos:

Juntando os elementos relacionados ao Solstício de Inverno para os celtas:
-Na Gália:
*se tem umas marcações no que se entendem ser os meses do Solstício de Inverno no calendário de Coligny (nomeadamente 4 Riuri).
*A festa a deusa Epona é marcada no 18 de dezembro
*A edícula de Castel, poossui uma epigrafia que relaciona os Dióscuros e o Hércules célticos, com as Matres e a deusa soberana - que era abrigadas (em sua descida ao Submundo) na edícula na altura do Solstício de Inverno (as deusas, em especial a soberana, descem, pois, protegidas pelos Dióscuros e têm o caminho livre por causa do Hércules que abate o cão que guarda o caminho). Na redondeza há dedicações a Iuppiter e a Iuno realizadas no dia 23 de dezembro de 246e.c no contexto da descida das Matres ao Submundo.

-Nas Ilhas:
*Mari Lwyd em Gales (a Mari, na casa que entra, após os devidos preparativos, afasta os "maus espíritos" e traz prosperidade/fertilidade
*Talvez a data tenha alguma relação com o nascimento e sumiço de Pryderi (de cabelo dourado, que alguns associam como sendo Mabon ap Modron, a associação de Pryderi com porcos e javalis é por demais evidente), cuja mãe é Rhiannon
*Sacrifício de uma égua branca na presença do rei eleito do Ulster
*O "esconderijo" de Boand (em Brú na Bóinne) por nove meses, causado pelo Dagda e longe do esposo Nechtain (Elcmar), até fazer nascer Oengus Óg no Solstício de Inverno.

-Folclore:
*Escócia: Shinny (jogo de bola, jogado especialmente na data), Hogmanay
*Lá an Dreollin (dia da caça da carriça) - Irlanda, Man e Gales
*Cornualha: Montol
*Portgual/Galícia: cepo (tizón) de natal (principalmente de carvalho, talvez de origem nórdica) queimado pela noite da véspera toda cujas cinzas são protectivas e fertilizantes, lembrança aos defuntos da casa durante a refeição; se colhe água da fonte e ervas, se banha nas águas e se lava animais antes do sol nascer (nos solstícios):
"Da crença no Solstício de inverno é a superstição: 'no dia de natal, à meia noite, deve sair-se para o campo e apanhar arruda, alecrim, salva e éra terrestre. A arruda ferve-se em azeite para dar fomentações, e das outras plantas faz-se chá para tomar quando se está doente'
O Sol é invocado em muitos ritos mágicos da medicina popular; em uma fórmula do Porto:
Deus é sol, Deus é lua
Deus é claridade!
Assim como isto é verdade
Assim tire d'aqui a enfermidade
E na Figueira, diz-se também:
Assim como Sol nasce na serra
E se põe no mar
Assim este mal
Vá lá parar"

(BRAGA, 1885, p. 54)
>A matança do porco no dia de São Martinho, talvez tenha alguma relação com o ciclo mítico do Solstício de Inverno, e a suposta caçada de um javali negro (símbolo das forças escuras/invernais), morto no Solstício ("sonhar com porco é sinal de morte" diz o povo ainda). No solstício oposto, ocorria a corrida de porcos ou montaria nos porcos (ou mesmo um porco preto era criado por um ano para tal ocasião). A data se liga ainda aos banquetes públicos da festa de Santo Estevão (cujas viúvas não tinha lugar a mesa, e quem não participasse era tachado de misantropo e antissocial).
>O sol é tido como um tesouro coberto pelas trevas da noite ou pelo frio do inverno, sendo revelado ao meio dia por uma entidade "demoníaca" (chamado pelo folclore português de Encantado ou Entreaberto).

-Animais e plantas associadas:
*carriça (no Brasil o uirapurú é da mesma família)
*tronco de carvalho
*égua (branca)

-No mundo Indo-Europeu em geral:
*Pode-se recorrer a algum conflito entre deuses
*Há lembrança dos mortos
*Morte e renascimento do Sol
*Talvez haja alguma relação com a idéia do "Fogo na Água" de *neptonos- (na Irlanda, a fonte de Nechtain, talvez na Ibéria o sol ígneo que desce nas águas do mar como diz Estrabão em relação aos ibéricos da costa ocidental)

Fontes:
KOCH, J. T. (et alii). Celtic Culture: a historical encyclopaedia.
MATSON, G.; ROBERTS, J. Celtic mythology A to Z.
MALLORY, J. P.; ADAMS, D. Q. The Oxford introduction to Proto-Indo-European and Proto-Indo-European world.
WEST, M. L. Indo-European poetry and myth.
HATT, J. J. Les mythes et dieux de la Gaule.
BRAGA, Th. O povo Portuguez.

O que podemos reunir de forma coerente com a tradição Indo-Européia para nossos fins rituais hoje?

Lançarei três hipóteses básicas que chamarei de h1, h2 e h3. Estou considerando que é bem provável que não tenha havida apenas uma narração mítica (entre os celtas, e mesmo na Ibéria) mas outras paralelas. Se encararmos a tradição como viva, é interessante (principalmente para os que estão nesta beira sul do Atlântico) sincronizar com os ciclos bio-regionais locais. A hipótese h3 é a fruto de minha cabeça sob um padrão geral identificado por J. J. Hatt.

h1. O deus golpeador une-se com a deusa rio que é esposa do deus-céu; para que este não saiba, o deus golpeador retém o sol por 9 meses de modo a criança nascer, antes do retorno do deus-céu; a criança cresce rapidamente sendo o deus da juventude, da música, luminosidade, cura.
*deus golpeador: Dagda
*deusa rio: Bóand
*deus-céu: Nechtain (talvez Nuadu)/Elcmar
*criança divina, deusa da juventude: Óengus/Mac ind Óg


h2. A deusa soberana encontrando-se comprometida a casar-se com um deus do submundo, vem pedir socorro a um soberano da superfície; este vencendo o deus do submundo, passa a governar tanto o submundo quanto a superfície. Uma criança é gerada e na noite de seu nascimento, desaparece, mesmo estando ao cuidado de amas e estas para não serem culpadas decidem forjar o infanticídio supostamente cometido pela deusa soberana. A deusa então é condenada a pagar uma pena pelo crime. A criança é encontrada num estábulo na mesma noite em que uma égua dera cria e criada por servos do soberano, que desconfiando do rápido crescimento da criança, descobrem sua natureza divina e a levam ao soberano que reconhece o filho e redime a esposa (a deusa soberana). A criança cresce rapidamente como o deus da juventude, luminosidade, cura, liderança, tendo seu governo sendo interrompido pela sua "morte" pelo deus golpeador num combate singular por causa de porcos roubados do outromundo.
*deusa soberana: Rhiannon/Modron
*esposo soberano: Pwyll
*criança divina, deus da juventude: Pryderi/Mabon
*deus golpeador: Gwydion


h3. O deus golpeador se une a deusa rio, na ausência do deus-céu; este, ao saber, retorna furioso e decide matar a criança quando esta nascer. Como compensação, o deus golpeador se dispõe a recuperar o gado do deus-céu que fora roubado por um "monstro" (a serpente com cabeça de carneiro?), que é vencido com o auxílio de um semi-deus, mas que fere o deus golpeador. O deus-céu prevendo as intenções da deusa-rio de o deixar para ter a criança, muda o curso do sol para que este não ilumine os acessos ao submundo. O deus golpeador visando retornar ao submundo para recuperar-se, consegue o auxílio dos gêmeos divinos que indicam o caminho, e desce ao submundo acompanhado pela deusa rio que teme pela vida do filho que está para nascer. O deus-céu decide reter o sol embaixo do mar iniciando uma caçada ao filho que está para nascer acompanhado de javalis negros. O filho nasce no submundo, mas é trocado por um tronco de carvalho pelo deus golpeador sem que ninguém mais o saiba, de modo que a deusa-rio e a suposta criança são encontrados pelo deus-céu e trazidos a superfície. Para reacender o sol (que passara tempo demais sob o mar) a suposta criança é sacrificada numa pira e o deus-céu retorna aos céus enquanto a deusa rio retira-se para os confins. A criança divina cresce rapidamente, também criada pelas deusas mães e pelo deus guerreiro, como porqueiro, depois sendo reconhecido como deus da música, juventude, artes em geral, luminosidade e cura.

-lusitano | galaico bracarense | galaico lucense
**deusa rio: Lurú/Dévá? | Límiá/Révá? | Révá -/Sannoavá?
**deus-céu: Ioviá -/Moricilos/Salámás? | Áernos/Réus | Réus
**deus golpeador: Quangeios | Densos/-Quangeios/Tongos? | ?
**gêmeos divinos: Arantios & Arantiá | ? | Equounoi
**deusas-mães: Matres
**deus guerreiro: Nétos | Nimedos/Cossus | Torolos/Cossus
**criança divina, deus da juventude: Miraros? | Albocelos | Véror/Aedovios?


A versão sugerida de tal mito, pelo druida Bellovesos - também com base em Jean-Jacques Hatt - põe a deusa soberana no lugar da deusa rio, assim como não aponta o episódio da matança do monstro pelo deus golpeador, nem aponta claramente para o nascimento da criança ou criação. Apenas se resume a tratar da "troca de esposos" sazonal, do conflito entre os deuses e do auxílio que recebem doutros para irem ao submundo. Grosso modo, a deusa soberana, para fugir do deus-céu, é transformada em três garças pelo deus da música auxiliado pelos gêmeos divinos. Neste caso, já que tal "mito" é gaulês:
*deusa soberana: Ríganí/Eponá/Rígantoná (trígaranus)
*deus-céu: Taranis
*deus da música: Belenos
*deus golpeador: Esus/Cernunnos (Sucellos?)
*gêmeos divinos: Déuanonos & Déuomogetimáros
-ajudam ainda os deuses: Toutátis e Smertulus.


No meu ver, o papel mágico da transformação da deusa em garças seria atribuído a outra divindade, sendo seu filho (o filho da Rainha) o deus Grannos (que me parece o próprio Belenos) > nascendo como o infante Maponos, que por alguma relação com javalis (por ser porqueiro ou após matar o javali gigante) é chamado de Moccos.

Pela interpretario romana:
*deusa soberana: Iuno/Matronae
*deus-céu: Iuppiter
*deus golpeador: Hercules, mas também Iuppiter, Dis-Saturnus
*gêmeos divinos: Dioscuri/Castor e Pollux
*criança divina, deus da juventude: Apollo/Sol


Isto é apenas um exercício de associações. Sou tentado a pensar numa maior aproximação entre uma proto-forma gaulesa do mito e a versão galesa (do Mabinogion) por um lado, e da versão gaélica (da história do Dagda e Bóand, e o nascimento de Óengus) e da proto-forma ibérica de outro. Daí que a h3 ficou como ficou. Para confirmarmos ou aperfeiçoarmos, é recorrermos ao contato direto com os deuses e nossa intuição. Por favor, fiquem a vontade para apresentar o que pensam a respeito e o que acreditam.

Inté!

:m:d:
:pb:


Última edição por Manuel Araújo em Qui Set 01, 2011 10:32 am, editado 1 vez(es)

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Re: Solstício de Inverno (originário da lista Recons-IberoCeltica)

Mensagem  Manuel Araújo em Qui Set 01, 2011 10:26 am

Da autoria de M. Diniz Nemetios
(Quinta-Feira, de Junho de 2011)

Slaniá tí!

Então, passarei rapidinho as coisas mais imediatas ao culto. Antes é bom ressaltar as deficiências do que foi postado abaixo:
1- não pesquisei e conheço pouco do folclore da Espanha (seja da zona do vale do Ebro, até as Astúrias e mesmo até a zona Extremeña); na verdade, a parte das informações folclóricas como um todo deve ser melhorada.
2- por outro lado, o folclore por si mesmo não oferece meios para separar o que é de origem "céltica" do que é de origem "germânica" ou mesmo influenciado por Roma. Daí que é bom ter isto em conta antes de qualquer coisa.
3- há um bom nível de hipotecidade, e no que diz respeito aos deuses ibéricos (e me falta ainda terminar o trabalho de catalogação dos deuses da Celtibéria, Astúria e zona fronteiriça com a Aquitânia) ainda muito. Mas como disse, convido todos a contactarem os deuses, estabelecerem relações também, pois sou crente que podem nos fornecer mais dados (que uma compartilhados e analisados pela comunidade de cultores) que ajudem na restauração do culto.

*práticas para a época:
-pessoais
>colher água de fonte sagrada
>colher ervas (arruda, sálvia, alecrim) à meia noite para preparar remédios e elixires
>banhar-se com a água sagrada, lavar animais domésticos antes da meia noite na véspera do Solstício de Inverno

-domésticas
>enfeitar a casa
>queimar o cepo (doméstico) do Solstício de Inverno e guardar as cinzas
>realizar uma refeição e lembrar os mortos da casa na noite da véspera
>ofertar aos deuses

-comunitárias
>preparar a queima do cepo, organizar procissão festiva (levada a cabo por jovens?) convidando os moradores (pode ser no sistema da Mari Lwyd, na porta das casas com versos improvisados)
>queimar o cepo (comunitário) do Solstício de Inverno e utilizar as cinzas (distribuir entre a comunidade, espalhá-las pelo campo, etc.)
>sacrificar aos deuses
>dançar, cantar e beber em torno do cepo em chamas na véspera do Solstício de Inverno (seria bom que o fogo durasse até mais do amanhecer)
>realizar um banquete comunitário em honra aos deuses, para o almoço no dia

*símbolos, animais e plantas:
*égua branca
*cisnes, pássaros brancos
*toco de carvalho, fogueira
*javali negro
*sol (rodas solares)
*arruda, alecrim, sálvia

*comidas:
>porco
>pão
>bacalhau?

---

Sugestões, críticas, correções, comentários?

Inté!

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